Velha mídia celebra a criação do OpenLeaks, rival do WikiLeaks

OpenLeaks vs WikiLeaks

Do Blog Chefe de Redação

OPENLEAKS – UM RIVAL “FABRICADO” DO WIKILEAKS?

Por H. C. Paes *

Foi lançado no último dia 13, o serviço virtual de vazamentos OpenLeaks, “rival” do WikiLeaks. Co-fundado por Daniel Domscheit-Berg, dissidente do WikiLeaks que o representava na Alemanha, o novo serviço surge com grande destaque da mídia. Também, não é para menos:

1º. Domscheit-Berg tem recebido atenção desmesurada porque ele, em princípio, “desconstrói” Julian Assange e o WikiLeaks: dissidentes do WikiLeaks têm se esmerado em aviltar a figura de Assange.

Não se sabe o quanto daquilo que dizem é verdade e o quanto é simplesmente lama no ventilador, mas eles parecem ter esquecido o principal, que Assange não se cansa de reiterar: ele é só um pára-raios. Ele tem sido celebrado pela mídia, mas também é ele quem está preso.

Enquanto isso, a operação do WikiLeaks segue firme e forte. No fundo, Assange é apenas uma oferenda para os lobos da opinião pública.

Vale lembrar que esse endeusamento seguido de queda é exatamente o tipo de padrão que a mídia espera que assimilemos com relação a Assange: se ele for um atacante de moças indefesas, um maníaco controlador e inebriado pelo poder, então o WikiLeaks se contamina por associação.

Ora, a proposta do WikiLeaks é exatamente ser descentralizado: a informação vazada é que é importante. Assange poderia se enforcar na cela que a idéia continua sendo válida e saudável. Assange é humano e cheio de defeitos, mas isso não significa que serviço que ajudou a criar seja dependente da figura dele. E não devemos nos esquecer da figura do vazador. Da mesma forma como um partido não se mancha porque um de seus políticos se corrompe, ou uma empresa não deixa de funcionar quando um de seus diretores comete um crime.

Assange é uma engrenagem no WikiLeaks, importante, mas não insubstituível.

2º. Domscheit-Berg alega que o OpenLeaks não adotará uma postura tão propensa a invocar hostilidade alheia porque não vazará diretamente o material que receber, e sim o distribuirá para mídia, protegendo a identidade do vazador. Em outras palavras, o serviço dependerá ainda mais da velha mídia do que o WikiLeaks para que seus vazamentos adquiram repercussão.

Isso é um tiro no pé. A única coisa que impede que a mídia corporativa ignore os vazamentos do WikiLeaks é o fato de que o material cru é liberado pelo próprio. É isso que garante o bom comportamento da imprensa: a certeza de que, se eles não noticiarem, as pessoas ficarão sabendo de qualquer jeito.

Se o OpenLeaks se fizer encabrestar pela mídia tradicional, nada impede que os vazamentos que cheguem a ele tenham o mesmo destino inicial das atrocidades cometidas pelo exército no estadunidense, que seguiram não noticiadas até que Seymour Hersh, sem visitar o Vietnã, decidiu noticiar My Lai.

A midiona se autocensura quando sofre pressão do governo; é assim desde que o jornalismo se associou inextricavelmente ao entretenimento e deixou de ser um serviço para ser apenas um negócio.

É previsível que o OpenLeaks vá ser a estrela de segmentos de imprensa que queiram retirar o WikiLeaks do foco das atenções por algum tempo, mas que vazamentos substanciais sejam solenemente ignorados ou reportados de forma distorcida (como aliás o New York Times fez com os cabogramas a respeito do Irã; por sinal, a cobertura do jornal novaiorquino é tão enviesada que desta vez o WikiLeaks nem quis dar a eles acesso direto ao material, foi preciso que o Guardian o fornecesse), ou apenas aceitos para publicação por periódicos de menor expressão e alcance (exatamente da mesma forma como a midiona daqui – sim, o PiG – trata os furos de veículos aguerridos como Carta Capital).

A não ser, é claro, que o OpenLeaks tenha um pouco de bom-senso e se reserve o direito de liberar o material como último recurso caso os parceiros midiáticos não se interessem. O que o tornará igual ao WikiLeaks.

3º. Outra percepção que a mídia tenta criar é de que haveria um confronto entre os serviços de vazamento. Só se for pela sensação de poder que o controle sobre a informação confere ao controlador, porque os vazadores arriscam o pescoço, os colaboradores não recebem um tostão e os porta-vozes como Assange viram alvo (físico ou retórico). Sem contar a sensação de futilidade que deve bater quando nada muda em resposta aos vazamentos.

Em outras palavras, não há motivo para esperar que o WikiLeaks compita com o OpenLeaks, até porque o “produto” da competição seriam as informações sigilosas. Mais provável é que os vazadores acabem por entrar em contato com os dois serviços.

Pode-se conceber ainda que o OpenLeaks, por ser mais “comportado”, tenha mais facilidade de conseguir doações e bolsas de agências de fomento privadas, mas isso não significa que o OpenLeaks terá perdido parte do anarquismo que tornou o WikiLeaks a bête noire dos poderes deste mundo. De que serve um serviço de vazamentos amestrado?

4º. Finalmente, o WikiLeaks não foi o primeiro serviço de vazamentos. Já existiam páginas na Internet que aceitavam informação sigilosa há anos, como o Cryptome.

O que o WikiLeaks conseguiu foi criar um modelo que, até agora, garantiu a segurança das fontes e o tratamento absolutamente sigiloso da informação, e uma estrutura descentralizada que reflete a própria filosofia caótica da Internet, e que torna o WikiLeaks muito difícil de destruir.

Bradley Manning só foi capturado porque um internauta a quem ele se gabou de ter vazado material sigiloso o denunciou às autoridades estadunidenses. Aliás, até hoje o WikiLeaks sustenta não saber quem enviou ao grupo as informações sobre as guerras no Oriente Médio e os cabogramas diplomáticos.

A imprensa, refletindo a posição pública do governo dos EUA, tenta fazer parecer que todos os vazamentos deste ano se originaram em Manning, como quem diz: “Prendemos o culpado, agora não haverá mais problemas”. Porém, é perfeitamente possível que haja vários vazadores e que, mesmo sem Manning, o WikiLeaks continue a ter acesso aos intestinos do complexo industrial-militar estadunidense e de outras sensaborias perpetradas pelos políticos de Washington.

O WikiLeaks não teve problema algum em anunciar o IndoLeaks, serviço de vazamentos específico para a Indonésia que se inspirou no original. Sinal de que eles realmente não querem deter um monopólio sobre os vazamentos. Assim, se o OpenLeaks conseguir funcionar a contento, ótimo: que se multipliquem os vazamentos e o número de voluntários dispostos a processar a informação e liberá-la para o mundo.

Ainda em novembro, Assange disse que uma das coisas que atrasa a liberação de novos vazamentos é a dificuldade em conseguir voluntários dispostos a se debruçar sobre o material que eles recebem. Ele deu a entender que o WikiLeaks ainda tem muito o que liberar. Ora, quanto mais alternativas, menos sobrecarregado o WikiLeaks ficará.

Aliás, a idéia do WikiLeaks é tão boa que sobreviveria até se o próprio desaparecesse, seja por ataques externos, seja pelas tais desavenças internas que Domscheit-Berg denuncia, seja porque seus colaboradores se desiludiram. Mas é improvável que isso aconteça: além de Assange, o serviço tem vários conselheiros, incluindo o ativista brasileiro Chico Whitaker.

O que não agrada é o fato de Domscheit-Berg ter invertido a ordem das coisas: ao invés de receber atenção da imprensa em função dos vazamentos, ele foi celebrado desde o começo, em vista de méritos que ainda não conquistou. Na verdade, o que a mídia quer é ouvi-lo falar mal de Assange.

O WikiLeaks existiu durante mais de três anos antes de se tornar conhecido. Em outras palavras, o pessoal do OpenLeaks é que parece querer a fama para se deitar na cama antes de mostrar serviço. Mesmo assim, que sejam bem-vindos e que tenham muito sucesso, caso estejam falando sério a respeito de suas intenções.

Mas lembrem-se: a questão da transparência dos governos é importante demais para ser resumida a uma guerra de egos ou a um jogo de aparências. Ainda restam 249 mil cabogramas, teremos diversão para meses e meses. (Por sinal, ontem, dia 13, não houve novo lote de cabogramas; por que será?)

* No blog do Luis Nassif

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Blog Chefe de Redação

Um comentário em “Velha mídia celebra a criação do OpenLeaks, rival do WikiLeaks

  • 10 de fevereiro de 2011 em 09:12
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    Querem saber mais sobre o megalomaníaco rival do Assange? Aí vai a última:

    O Wikileaks está processando seu ex-empregado Daniel Domscheit-Berg, que foi suspenso da organização em setembro passado. Em livro recente, Daniel confessa vários atos de sabotagem contra a organização, como danificar os servidores do Wikileaks e roubar material. Essas ações obrigaram Wikileaks a reformar todo seu sistema de submissão.

    O papel de Domscheit-Berg na organização foi muito limitado e foi diminuido quando sua atuação foi questionada. Ele tem se apresentado como programador, cientista de computação, perito em segurança, arquiteto, fundador, editor e porta-voz.

    Na verdade ele se juntou ao Wikileaks uns dois anos depois de sua fundação. Ele não sabe programar e não escreveu um único programa para a organização; não atuou tecnicamente nem em decisões políticas, e teve muito pouca atuação como editor. Ele não é cientista de computação nem perito em segurança.

    Resumindo: trata-se de um tremendo um-sete-um

    Daqui: http://wlcentral.org/node/1254

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