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Uma carta de repúdio à impossibilidade de se viver em paz

Enviado por em 7 de abril de 2011 – 18:053 Comentários

Assassinato dos alunos

HOJE NÃO ME SINTO CIDADÃ

Por Eleonora Ducerisier *

Hoje não me sinto cidadã. Cidadã de nação alguma, de país algum. Desejo esquecer o idioma que falo. Desejo me desfazer de qualquer coisa que me caracterize e que indique, mesmo que de forma remota, que eu compactuo com o mundo ao meu redor.

Enlouquecemos.

Esta é uma carta de repúdio. Repúdio a atrocidades, repúdio à conivência, repúdio à impossibilidade de se viver em paz.

Peço que nenhum filósofo de plantão se levante esclarecendo que a paz é um conceito relativo e que isso e que aquilo. Respeitem a minha condição de ser vivo apenas, não quero racionalizar, não posso elevar meu medo à transcendência.

Calem-se todos os que dirão que o ser humano é imperfeito e que nossa angústia é lírica. Vocês também sentem dor, também sentem medo e tenho certeza que correm ao ouvir um disparo.

É ao estampido, à corda no pescoço, ao abuso sexual, ao desvio de verba destinada a erguer um hospital, ao mau professor, a falta de empatia e compaixão que eu dirijo minhas palavras.

Não é possível não se fazer nada.

Não é um problema da nossa pátria amada tão desgarrada e que nos pariu aos milhões, é global. É a única coisa realmente democrática nesse mundo: a selvageria e a estupidez humana.

Culpem quem quiserem culpar, isso não altera em nada. Se não é o governo, é a desigualdade, a condição humana. É tudo.

Não vamos culpar ninguém, foi dito, não fará diferença. Vamos nos responsabilizar pelo quinhão que nos cabe.

Cada um de nós, brasileiros, americanos, suíços, japoneses, congoleses, e todos os outros adjetivos pátrios que há, somos os responsáveis pelas dores individuais e coletivas.

Em grande e pequena proporção.

Hoje me doeu ler que crianças foram mortas numa escola. E não sou uma fútil de me emocionar com o que é relatado, de forma sensacionalista e clichê, pela grande imprensa. Nem uma simplória de achar que essa é a pior coisa que possa acontecer. Sou uma hipócrita. Que hoje sentiu as bases de sua hipocrisia abalada, já que a dissolução de nossa sociedade é tão clara, que nem mesmo eu posso fingir que não a vejo.

É evidente demais, é claro demais, é triste demais e é o suficiente. Não é possível viver de olhos fechados o tempo todo.

Ouvi culparem os islâmicos, a pobreza no país, a falta de segurança nas escolas, a existência de armas, mas alguém por favor desperte! Armas não se disparam sozinhas! Não é um problema terceirizado, não é um problema do lado de fora. É algo interno, é um problema humano, de conduta, de escolhas.

Somos nós os problemas. Nossas escolhas, nossas postura enquanto indivíduos.

Seria impossível descrever a bola de neve que uma atitude impensada pode ter. Mas são essas atitudes que nos remetem de volta à barbárie. De que adianta qualquer passo em direção a um futuro, se ele representa um retrocesso? Sociedades anteriores a era cristã eram mais equilibradas do que a nossa… E sociedades são compostas por indivíduos.

O desequilíbrio é nosso. É seu, é meu, é de todo mundo.

Nos tornamos um arremedo da evolução, crescemos ao contrário. Tecnologia nunca foi e nunca será sinônimo de evolução. É apenas poder. Somos boçais.

Não há um único culpado por situações de atrocidades. Nada justifica o indizível.

Hoje eu demonstro meu repudio ao indivíduo humano, à unidade transformadora que aperta o gatilho, que viola um outro ser, que se compraz na falta alheia, que se compraz com a dor alheia.

E a todos os organismos formados por essas unidades, aos meios de comunicação, aos governos e aos sistemas, às elites e massas dominantes, aos dominados e servis, aos bancos, aos mercados, aos carros, às sacolas plásticas, às igrejas, aos ignorantes, aos desumanizados, aos intelectuais, aos artistas, às artes, às necessidades, aos egoísmos, às instituições, a todos e todas: espero que daqui 500 anos quem olhe pra trás se arrepie com nossa brutalidade.

* Eleonora Ducerisier, no Luis Nassif

3 Comentários »

  • Paulo Eugyde Eyphanio disse:

    Boa Noite
    Esta sua carta fala tudo que eu sinto e penso a respeito deste e dos outros massacres.
    Parabens por suas palavras e peço autorização para publica-la meu blogg e no meu orkut.

    sem mais

    [Responder]

    Cláudia disse:

    Fique à vontade, Paulo, a mensagem já está disponibilizada no Facebook e sendo repassada por todos aqueles que vivem o mesmo sentimento de repúdio e indignação com a condição dita ‘humana’.

    [Responder]

    Eleonora Ducerisier disse:

    Paulo, me sinto honrada por vc replicar o texto que escrevi, um grande abraço. Cláudia, muito obrigada. Bjos!

    [Responder]

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