Sugestão de tese para dissecação de cadáver político tucano

José Serra - destroços

OS ESCOMBROS DO SERRA

O Chefe de Redação

Parece uma eternidade, mas aconteceu há poucos meses. A imagem que vincou na minha memória a mais suja campanha eleitoral da história não foi a farsa da bolinha de papel na careca, nem as aparições ao lado de evangélicos anti-aborto ou católicos fundamentalistas e muito menos o puxa-saquismo degradante do William Bonner no Jornal Nacional da Globo.

Não, a cena chocante foi esta: José Serra em meio aos escombros do Maracanã acenando como um miserável flagelado de alguma tragédia a pedir socorro. Naquele momento eu tive certeza que ele perderia a disputa pela presidência da República. A estupidez do que ousou nem a múmia embolorada do FHC arriscaria lá das profundezas de seu sarcófago de barro folheado a pirita, o ouro de tolo.

Imagina se um líder político vencedor de verdade, pelo simbolismo que isto representa, posaria junto, sobre ou sob escombros, rejeitos e dejetos de qualquer espécie. Juro, eu nunca tinha visto nada igual.

Ali ficou claro que não havia qualquer comando de campanha, que ele, Serra, fazia o que bem entendiam seus ticos e tecos, já com evidentes sinais de senilidade. Afinal, um assessor de marketing minimamente qualificado ou intelectualmente aparelhado jamais permitiria tamanho vexame.

Hoje se percebe que ninguém no seu entorno honraria as próprias calças a ponto de demonstrar alguma dignidade para questionar a suprema autoridade do senhor dos anéis de araque.

Me lembrei daquela imagem ao ler o artigo desta quinta-feira, 5, em que Luis Nassif disseca os despojos políticos deste que pretendeu um dia chefiar a Nação e que agora aguarda a última pá de cal:

SERRA E A (I)LÓGICA DA BUROCRACIA PARTIDÁRIA

(…) O caso José Serra-PSDB é emblemático.

Analise-se o político Serra hoje, fora do minarete do controle burocrático que exerceu sobre o PSDB.

Perdeu os espaços possíveis junto ao PSDB nacional e ao DEM. Dançou em São Paulo.

Montou uma aliança com Kassab que vai entrar para a história. Kassab ficou com todos os quadros técnicos do serrismo, conseguiu a estrutura operacional de que necessitava, inclusive o cacife da prefeitura para atrair parte do DEM … e irá se aliar a Aécio.

Serra apostou no barco do PSD, encheu a bola de Kassab, ajudou a montar a tripulação. Quando o barco saiu do cais, percebeu que estava fora, como um membro da corte portuguesa que não conseguiu alcançar as caravelas que permitiriam a fuga para o Brasil.

José Serra abandonado no cais

Experimentou todo o desgaste possível com suas manobras para queimar Alckmin e restou de mãos abanando. Depois, foi até Alckmin para – suprema humilhação para quem conhece o ego de Serra – se explicar, atribuindo as informações sobre sua traição a intrigas de secretários de confiança do próprio governador.

Na campanha, todas as acusações contra Serra eram rebatidas com o argumento simplório de que não passavam de “intriga petista”.

Antes disso, desde que se tornou governador, aliou-se ao pior esgoto jornalístico e abandonou por completo o discurso programático. Chegou para ao final da campanha sem nada, explorando apenas fígado e intestinos de seus eleitores.

Tem um final melancólico, sem discurso, sem bandeiras e sem seguidores.

Agora, olhe para trás. A esse personagem vingativo, pequeno, politicamente burro (uso o termo que lhe foi dito por dois dos seus melhores amigos, quando viram o brejo em que se embrenhava), de uma incompetência política única na moderna história brasileira, foi depositada a esperança do segundo maior partido nacional, da parte mais influente da mídia, de parte relevante da classe média, de ser o grande vingador branco, que derrotaria o lulismo.

Quem ousasse apontar o rei nu era execrado. Ocorreu com um dos melhores políticos do DEM que, em meados de 2009, ousou fazer uma análise isenta que apontava essa pequenez de Serra. Amigos próximos evitavam cumprimentá-lo em público para não se indispor com o feroz imperador.

Ocorreu com a mídia, escondendo seus esbirros autoritários, sua falta de gana, a inapetência gerencial, cedendo às suas pressões.

No futuro, será tema para boas teses dissecando o mal que vitimou o PSDB: o caciquismo, o burocratismo que impediu a renovação do partido.

* Ficou faltando (propositalmente) a abertura do texto original, onde o Nassif discorre sobre a burocracia em regimes autoritários.

* * *

O Chefe de Redação

Um comentário em “Sugestão de tese para dissecação de cadáver político tucano

  • 6 de maio de 2011 em 10:34
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    Muito bom! Sugiro até, para complementar, a leitura da bela análise de Ma. Inês Nassif:

    (…) ocorre agora a transferência de poder do núcleo paulista (representado por José Serra e Fernando Henrique Cardoso) para o pré-pré-candidato a presidente, senador Aécio Neves (apoiado pelo paulista Geraldo Alckmin), que muda de chefe, mas não de partido.

    Serra está totalmente esvaziado; FHC não conseguiu manter uma liderança de fato depois que deixou o poder.

    O espaço passa a ser ocupado de forma quase absoluta pelo mineiro Aécio Neves, que assume o comando do partido nas mesmas condições que os paulistas antes dele: capitalizando apoio incondicional da elite por sua candidatura, contra o PT, na sociedade; e com comando pleno sobre o partido, internamente, de um projeto político personalista.

    No final das contas, o PSDB caminha para repetir a receita de organização que o levou a nocaute nessas eleições. E que pode nocauteá-lo de vez se enfrentar mais uma derrota.

    Completo aqui: http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/um-modelo-para-repetir-derrotas-por-ines-nassif

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