O naufrágio do ‘titanic’ Veja nas correntezas de Cachoeira

Revista Veja e Cachoeira

SE A CANOA NÃO VIRAR…

O Chefe de Redação

O inusitado da capa da revista Veja, insinuando que a CPI de Cachoeira visa jogar cortina de fumaça sobre o “mensalão”, mostra que, na verdade, o que está em jogo é algo suprapartidário e muito mais grave do que denúncias políticas: a parceria entre a Veja e o bicheiro Carlinhos Cachoeira, ao longo dos últimos oito anos. A revista sustenta que a associação com o criminoso visou levantar denúncias que permitissem ‘limpar o país’. Mas a história não mostra isso.

VEJA E A CPI DE CACHOEIRA

por Luis Nassif *

Na sua última matéria de capa, a Veja compara-se ao promotor que propõe ao réu a “delação premiada”. Trata-se de um instituto, previsto em lei, pelo qual o réu tem abrandamento de pena se se dispuser a entregar escalões mais altos da organização criminosa.

No caso de Cachoeira, tal não ocorria. As matérias fornecidas pelo bicheiro serviam para detonar quadrilhas rivais, fortalecendo seu poder. Mais que isso, juntos, Cachoeira e Veja transformaram o senador Demóstenes Torres no político mais influente da oposição.

Graças ao prestígio bancado pela revista, Demóstenes conseguia penetrar nos diversos departamentos da administração pública, defendendo pleitos do bicheiro.

No caso do grampo sobre a propina dos Correios, houve o claro propósito de beneficiar Cachoeira.

O diretor da revista [Policarpo Jr.] supervisionou pessoalmente o grampo, até julgar que estava eficiente. Depois disso, segurou a notícia por um mês, dando tempo ao esquema Cachoeira fazer o uso que bem quisesse.

Publicada a denúncia, conseguiu-se o afastamento do esquema Roberto Jefferson dos Correios, e seu lugar ocupado novamente por esquema ligado ao próprio Cachoeira – que, dois anos depois, foi desbaratado pela Polícia Federal.

No episódio Satiagraha a revista usou os mesmos métodos. Para paralisar as investigações – que levariam inevitavelmente a Daniel Dantas –, a revista soltou uma série de matérias montadas.

Foi assim com a capa “O país do grampo”, que juntava um conjunto de informações desconexas, para passar a impressão que a Polícia Federal estaria grampeando meio mundo. Na verdade, a usina de grampos era do próprio Cachoeira.

O mesmo ocorreu com o “grampo sem áudio” – o falso grampo que teria interceptado uma conversa entre o Ministro Gilmar Mendes, do STF, e o senador Demóstenes Torres.

A falta de limites era tal que a revista publicou um dossiê contra o Ministro Edson Vidigal, do Superior Tribunal de Justiça, que havia dado uma sentença contra Dantas.

Era uma armação tão descarada, que a reportagem anunciava uma representação de uma ONG junto ao CNJ (Conselho Nacional de Justiça), contra Vidigal. A representação baseava-se na própria reportagem da revista – que ainda nem tinha sido publicada.

Veja e cachoeira - grampos sem áudio

CACHOEIRA E DELTA: O TODO E A PARTE

Tome-se a gravação em que o presidente da Delta fala sobre subornos. Apareceu em todos os jornais e mereceu menção no Jornal Nacional. A fonte era o jornalista assessor de Carlinhos Cachoeira.

A rigor, o diálogo não significa nada. O executivo fala em hipóteses: “se eu” colocasse tantos milhões nas mãos de fulano, ganharia a obra; “se eu” colocasse tantos milhões nas mãos de beltrano, e assim por diante. Ele não falou “eu coloquei” tantos milhões nas mãos de fulano…

Tem o mesmo valor de uma declaração tipo “se eu fosse Onassis, conquistaria Jackie Kennedy”.

Não se tenha a menor dúvida de que a Delta está atolada até o pescoço em subornos e falcatruas. Transformar em mote de cobertura geral um diálogo absolutamente insosso chama a atenção.

Mas faz parte de uma estratégia de fogo de encontro que foi bastante utilizada na CPI dos Precatórios, de tirar o foco do todo e colocá-lo na parte. Na época, o todo era Paulo Maluf, Gilberto Miranda e companhia. A parte era o Banco Vetor, elo menor da corrente.

Focando-se no todo, pegar-se-iam todos, incluindo o Vetor; focando-se na parte, apenas o Vetor, livrando Paulo Maluf e companhia.

Durante um mês, toda a cobertura de Brasilia focou na parte. E aí se entra no efeito-manada.

Havia uma sucursal específica empenhada em livrar Maluf. Ela assumiu a liderança da cobertura e o restante da mídia foi atrás, pelo efeito-manada.

Vai se tentar repetir o estratagema, agora, em relação ao todo Cachoeira e a parte Construtora Delta.

Focando-se na Delta, deixam-se de lado as relações de Cachoeira com políticos de vários estados e funcionários de vários ministérios, com os dossiês, com seus investimentos em genéricos e com suas parcerias na mídia.

E fica-se apenas com a parte Delta.

Nessa guerra retórica e de cobertura, um segundo recurso tem sido a insistência nessa versão de que o Planalto teme a CPI e está manobrando para minimizar os estragos. Não teme, mas tem sua estratégia que consiste, justamente, em colocar o foco no todo.

Portanto, o jogo político-midiático em torno da CPI é simples de entender: o Planalto quer apurar o todo Cachoeira; a cobertura da mídia quer apurar apenas a parte Delta.

* No blog Luis Nassif Online, aqui e aqui

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