Marmita é agora o novo símbolo do ‘perrengue’ em Portugal

CRISE GERA NOVA LEGIÃO DE MARMITEIROS

Marmiteiros de Portugal

As marmitas (alguém se lembra delas?) praticamente desapareceram do cenário urbano brasileiro de dez anos para cá. Este símbolo nacional do perrengue foi abolido com a ascensão social, que permitiu aos trabalhadores se alimentarem em restaurantes e lanchonetes.

Até 2002, era comum observar as pessoas almoçando em potes trazidos de casa ou em embalagens metálicas também conhecidas como quentinhas, não apenas em obras ou fábricas, como também em repartições públicas, escritórios, butiques e comércio em geral.

Se elas somem por aqui, ressurgem do outro lado do Atlântico. Os cortes de salários e as altas de impostos com o ataque neoliberal em Portugal voltaram a popularizar a marmita e os menus baratos nos restaurantes, com refeições batizadas de “FMI”, “Troika” e “Merkel”, a partir de 3,95 euros cada uma.

A GALINHA DA ZÉLIA

Aqui no Brasil, à época Plano Collor, em 1990, um restaurante carioca batizou o seu principal prato popular como A Galinha da Zélia, numa crítica à então Ministra da Fazenda, Zélia Cardoso de Mello, que ajudou a promover, pela primeira vez na história mundial, o confisco da poupança e de todos os ativos financeiros de um país da noite para o dia.

Agora, limitados pela carga de impostos e ainda à espera de novos cortes no orçamento, são os portugueses que buscam economizar e começam a recuperar a figura da marmita em seus locais de trabalho, enquanto os donos de restaurante se ajustam à atual época de vacas magras.

Durante o ano passado, 40% dos portugueses optaram por levar aos escritórios a comida preparada em casa, uma percentagem que em 2009 era de 27%, segundo dados da empresa de consultoria Kantar Worldpanel.

O aumento do tempo passado em casa para evitar gastos, a diminuição da renda e a alta dos preços são os fatores que explicam essa tendência.

Em Portugal, um dos países europeus com mais bares e cafeterias por número de habitantes, esse “deslocamento do consumo alimentício” representou uma redução de 30% no lucro dos restaurantes.

MARMITA LISBOETA

Levar esses pratos de baixo custo diretamente aos escritórios é outra das iniciativas mais acolhidas por aqueles que ainda resistem às marmitas.

Para muitos consumidores, no entanto, mesmo esses baixos preços superam a despesa que têm ao levar a comida de casa para o trabalho, motivo que, segundo a empresa de consultoria Kantar, explicaria o aumento do gasto médio anual por português no supermercado, que passou de 1.700 euros, em 2010, para 1.835 euros, no ano passado.

Os sites portugueses não são alheios à tendência, e em blogs como A Marmita Lisboeta, além de coletar receitas variadas e adequadas para essa opção, os marmiteiros trocam experiências e recomendam os melhores e mais estilosos recipientes.

“Porque o hábito de levar o almoço para o trabalho está definitivamente na moda e não há uma marmita igual à outra, cada uma com um estilo”, diz a apresentação do blog.

Pelo menos até que os nossos patrícios consigam virar o jogo político, se é que vão ter disposição e coragem para isso algum dia.

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