Ganância é doença mental com causas biológicas e sociais

VÍCIO POR CAPITAL PRECISA DE TRATAMENTO

Involução da espécie humana

A ganância foi a principal causa da crise financeira mundial de 2007/2008, que para nós teve o impacto de uma marolinha graças às medidas anticíclicas tomadas pelo governo brasileiro à época.

Associada no cristianismo a um dos sete pecados capitais, a avareza, é ela quem alimenta as grandes chances de um novo colapso global do sistema capitalista ao longo deste ano de 2016.

Há algumas questões comportamentais importantes que estão por trás do capitalismo atual e que precisam ser enfrentadas.

A ganância é o desejo exagerado por dinheiro, que acarreta problemas graves como a necessidade de corromper e enganar para se ter o que quer.

Isto leva, também, a uma menor capacidade de olhar outros tipos de benefícios que podem ser auferidos durante a vida para além dos bens materiais.

Foca-se demais na acumulação, em fazer mais patrimônio, em ter mais do que outros. A ganância vem junto, quase sempre, com a ostentação. É preciso comprar mais, ter mais e mostrar mais.

TRANSTORNO MENTAL

Justifica-se, portanto, que no âmbito da psicologia a ganância seja um transtorno mental cujas causas parecem ser de origem biológica e social.

No desespero por mais capital, esquece-se de olhar o longo prazo e o contexto completo. Quando as coisas começam a dar errado, tenta-se escondê-las, o que faz os problemas se agravarem ainda mais, apenas vindo à tona quando o colapso é inevitável ou já aconteceu.

Foi assim com a crise de menos de 10 anos atrás, decorrente das inúmeras vendas de investimentos podres, que criaram uma gigantesca estrutura de apostas sobre uma base de hipotecas que não poderiam ser pagas, pois decorrentes da concessão irresponsável de crédito, em sua grande maioria, a pessoas simples.

Juntamente com a crise econômica norte-americana instalada em 2007, veio a inadimplência e a explosão da estrutura de investimentos podres feitos sobre o mercado de hipotecas imobiliárias, até então tido como “muito seguro”.

Algumas poucas pessoas foram capazes de enxergar isso, como Michael Burry, que ficou ainda mais bilionário apostando contra os bancos e, portanto, contra o mercado imobiliário americano.

INSIDE JOB, O FILME

Essa e outras histórias são muito bem contadas no famoso documentário Inside Job, cujo título brasileiro é “Trabalho Interno”. Como os poderosos bancos, repletos de especialistas experientes, não conseguiram antever o colapso? A razão é: ganância.

O filme ilustra bem como, durante o período anterior à crise, apesar de verem o que acontecia, as agências de risco e outros agentes relacionados ao mercado financeiro lhe ajudaram, como normalmente fazem, a esconder o que se passava.

Não por acaso, são as mesmas agências de risco que avaliam hoje o Brasil de maneira pior do que avaliam economias bem menos estáveis, como a russa.

A ganância termina manipulando a expectativa, um dos principais elementos econômicos, ainda pouco compreendido e estudado.

Não se trata de demonizar a ambição, que estimula o crescimento e a inovação. Fala-se aqui da ambição (desejo) exagerada, que se torna um transtorno, que individualiza demais o homem.

Isto o faz pensar apenas em ter liberdade para ganhar dinheiro, preferencialmente em curto prazo, sem perceber o quanto o sucesso econômico, e a sua própria qualidade de vida, dependem do coletivo.

CEGUEIRA ECONÔMICA

A grande maioria das pessoas, e sobretudo os mais ricos, não consegue enxergar a economia sem ganância, para além das expectativas elementares, no longo prazo, considerando múltiplos aspectos e seus efeitos.

Se eles conseguissem fazer isso, perceberiam que o sistema capitalista atual está à beira de novos colapsos.

Sem demanda agregada, não há como prosperar, repete o duas vezes vencedor do Prêmio Nobel de Economia, Joseph Stiglitz, incessantemente. Além disso, sem meio ambiente e sem alguns recursos, não haverá no futuro sequer como existir uma economia.

Os gananciosos não são capazes de perceber que apenas uma adequada distribuição de riqueza e renda poderá manter suas empresas vendendo e, portanto, lucrando.

Não se trata de tornar todos pobres, mas de permitir que a riqueza continue se multiplicando, o que apenas acontece dentro de um ecossistema de negócios equilibrado, onde uma grande quantidade de pessoas consegue produzir e consumir em patamares não abissalmente distantes.

Os gananciosos, em sua maioria, não percebem que o aumento desenfreado de produção destrói o meio ambiente, acaba com os recursos naturais muito rapidamente e pode levar a desastres ambientais, quiçá a um colapso do próprio planeta.

REDUÇÃO DA DESIGUALDADE

Eles não percebem que a sua qualidade de vida depende da redução nas disparidades de desigualdade de qualidade de vida existentes na sociedade.

Apenas com mais pessoas bem educadas e com capacidade de consumo e produção será possível reduzir a violência, aumentar a produtividade, a produção a partir de novos negócios, a demanda e a produção dos negócios já existentes, atraindo mais investimentos, gerando novos empregos, aumentando novamente a demanda e assim por diante.

Deste modo, resolver os problemas socioeconômicos atuais não depende apenas de o Estado oferecer uma boa educação na escola a todos. Esse é apenas um dos passos.

A educação de qualidade vem também de fora da escola, de modo que todos precisam ter boas relações, qualidade de vida, capacidade de consumir e outros elementos que possibilitam o desenvolvimento humano.

Levar a produção para um nível sustentável, reduzir desigualdades, são bandeiras progressistas muitas vezes mal defendidas e mal explicadas pelos próprios progressistas.

É o que leva os conservadores a acusá-las de moralistas, populistas e vazias.

CONSTRANGIMENTO

É preciso trazer técnica ao debate e demonstrar aos gananciosos que se preocupar seriamente com igualdade e meio ambiente é uma questão emergencial de eficiência econômica e de garantir que eles continuem vivos, sadios e ganhando dinheiro.

Isso muda a perspectiva sobre o dever do progressista, que está cansado de constranger os gananciosos com dados sobre desigualdade, concentração de renda, falta de demanda agregada etc.

Somada a essa tarefa do constrangimento por meio da exposição de dados que comprovam os erros nos caminhos que vêm sendo tomados, o dever do progressista agora é ajudar os gananciosos a se curarem, ou seja, é ajudá-los a compreender que sua atitude é autodestrutiva.

A ganância é, como dito, um comportamento vinculado ao individualismo. Não adianta mostrar a um ganancioso que ele prejudica milhões de pessoas. Em regra, isso não alterará o seu comportamento.

Ele o modificará, talvez, se perceber que está agindo de forma autodestrutiva, em seu próprio malefício. Deve-se ajudar o viciado a compreender que o seu vício piora a sua própria vida.

VICIADOS POR CAPITAL

A ganância é entendida na Psicologia como um vício por capital, um transtorno que precisa ser tratado. O ganancioso, como todo doente, dificilmente admitirá que ele é doente e encontrará justificativas para suas atitudes.

A ganância é, na verdade, um transtorno muito mais difundido na sociedade do que se imagina e é interessante como ainda se fala pouco sobre ela. Isso talvez aconteça porque a grande maioria das pessoas sofra dela e não queira enfrentar o assunto.

O que muda de um indivíduo para o outro é o grau da doença e a forma de manifestação. Às vezes, a ganância não é apenas por capital, mas por atenção, por conquistar sexualmente mais pessoas etc. É um desejo desenfreado de ter mais do que os outros.

O ganancioso não é, portanto, uma pessoa má por natureza. É possível que existam fatores biológicos e até espirituais na propensão à ganância, mas ela se manifesta especialmente na relação social.

Alguém inserido dentro do mercado financeiro, vivendo aquele sistema corrompido todos os dias, tende muito mais à ganância do que indivíduos inseridos em ambientes menos ligados ao capital.

TRATAMENTO E CURA

O ganancioso não deve ser tratado pelo progressista como inimigo, mas como um irmão social que necessita de tratamento contra o seu vício.

É fundamental uma atitude agregadora para que se possa convencê-los, embora um ganancioso que é um conservador radical e odeia os progressistas dificilmente será convencido por algum deles de que está doente.

A tarefa do progressista é, portanto, primeiramente, mudar a ele mesmo, pois inúmeros não agem da forma que pregam.

Cumprido esse primeiro passo, cabe, então, abrir os olhos dos seus irmãos conservadores para os males que eles estão fazendo, sobretudo a si próprios.

* Autoria de Marcos de Aguiar Villas-Bôas – doutor em Direito Tributário pela PUC-SP, mestre em Direito pela UFBA e Advogado. Atualmente faz pesquisas independentes na Harvard University e no MIT – Massachusetts Institute of Technology.

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