Caiu o homem da mala, calcanhar de Aquiles da presidenta Dilma

Dilma Rousseff - Calcanhar de Aquiles

SEGURA MORREU DE VELHA

O Chefe de Redação

O gozado, nessa história toda da queda do Palocci, é que a Dilma, com apenas 5 meses de governo, aproveitou a oportunidade de ouro para cauterizar em grande estilo a ferida aberta no seu calcanhar de Aquiles para explicar de onde veio a grana pesada da caríssima campanha eleitoral que a oposição midiática iria, em momento político oportuno, trazer à tona para infernizar a vida da presidenta.

Palocci, na realidade, com a cortina de fumaça do enriquecimento a jato via consultoria, era a bomba-relógio do tradicional caixa 2 que seria detonada mais para o meio do atual mandato, como aconteceu no primeiro governo Lula com o carequinha Marcos Valério, aquele do mensalão/tucanoduto. Só que agora ou ninguém percebe ou faz cara de paisagem. Mas que foi um golpe de mestra, lá isso foi.

A seguir, reproduzo dois ótimos textos que surgiram no meio tempo do Fla-Flu que envolveu a queda do homem da mala, porque é disso que se trata. O primeiro, é de Renato Rovai, editor da Revista Forum e, a seguir, o tijolo (sem parágrafos e ruim de ler, mas de bom conteúdo) do Marco Aurélio Mello, ex-Globo e atual Record:

Antonio Palocci - charge

CASO PALOCCI: ÉTICA SELETIVA E PATRULHAMENTO IDEOLÓGICO

Por Renato Rovai *

O caso Palocci, que terminou enquanto crise governamental na tarde de ontem [7], foi mais um episódio revelador de como não é fácil tentar ser jornalista independente. Este blogue menos e o de outros colegas mais, sofreram o que se pode chamar de “patrulhamento opinativo” ou se preferirem “bullying blogosférico”. O motivo, não aceitar a lógica da ética seletiva e defender que o ministro Palocci, homem público desde 1988, quando se elegeu vereador na cidade de Ribeirão Preto, explicasse como amealhou 20 milhões de reais num período inferior a quatro anos.

A democracia é algo mais complexo do que algumas pessoas imaginam, enseja contraditório e exige pessoas e instituições que estejam dispostas a questionar governos e governantes, não aceitando qualquer justificativa e explicação como parte dos desígnios do pragmatismo político.

À imprensa estaria reservada parte deste papel. Mas sua degradação instalou uma confusão que hoje leva a imaginar que ao jornalista que se dedica à política cabe escolher um lado e defendê-lo independente de qualquer coisa.

É importante que o Caso Palocci nos ajude a refletir sobre isso. Não vale a pena, ao menos para este blogueiro, lutar por uma outra comunicação se ela vier a ser a mesma coisa do que a mídia comercial, trocando apenas o sinal. Ou seja, ao invés de limpinhos de direita, sujinhos de esquerda. Mas que se utilizam dos mesmos critérios tendenciosos e falaciosos para entregar aos seus leitores meias-verdades e informações intoxicadas.

Há certas coisas que não devem ser pela metade. Se defendemos jornalismo com compromisso público, ética na política, livre opinião e democracia, devemos fazê-lo por inteiro. Com seus riscos incluídos.

Isso pode levar a derrotas pontuais, mas permite continuar olhando para frente e defendendo os ideais.

Da mesma forma que se diz que o uso do cachimbo deixa a boca torta, excesso de pragmatismo também pode levar a mudar de lado.

É preciso estar atento. Sempre.

Até porque credibilidade tem a ver com a reputação. Que se constrói com coerência.

* No Blog do Rovai

Charge Antonio Palocci

MEUS 15 ANOS DE PALOCCI

Por Marco Aurélio Mello *

Trabalhei na afiliada da TV Globo de Ribeirão Preto em 1995 e 1996, durante a primeira gestão de Antonio Palocci Filho, como prefeito da cidade. Seu governo era quase unanimidade entre o empresariado e a elite sucroalcooleira. A cidade se transformou numa espécie de “laboratório” de gestão do PT. A “metrópole caipira” também ambientou a principal trama da emissora na epóca: a novela O Rei do Gado. Vivíamos na chamada Califórnia brasileira, um dos poucos municípios do país cujo PIB crescia muito acima da média nacional. Naquele período, a Globo tinha grandes interesses comerciais por lá: cobria com exclusividade a Festa do Peão de Barretos e incentivava o resgate da memória de Portinari, em Brodowski. Palocci fez um acordo com a Fundação Roberto Marinho para restaurar o Teatro Pedro II, considerado uma das melhores acústicas do país. Naquela ocasião, a orquestra municipal era regida por um jovem talento, que se consagraria anos mais tarde e cairia em desgraça mais recentemente: o todo-poderoso maestro Roberto Minczuk. Como prefeito, Palocci foi o primeiro a implantar o Renda Mínima. Também reformou escolas, construiu postos de saúde e ganhou importante prêmio do UNICEP por atenção especial à infância. Mas o prefeito terceirizou serviços públicos e iniciou o processo de privatização da CETERP uma empresa municipal de telefonia – superavitária. Estas duas decisões foram muito criticadas pelos militantes. Não chegou a completar a segunda gestão, porque foi convidado a coordenar a campanha à presidência de Lula, em 2002, depois da morte de Celso Daniel. Na segunda gestão como prefeito, Palocci sofreu grande desgaste político por causa do aumento do IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano), com a implantação do modelo progressivo. Os aumentos chegavam a até 900% e desencadearam uma onda de ações na justiça. Também foi acusado de desvios na compra da merenda escolar e recebimento de propinas na coleta de lixo e execução de obras públicas. Foi inocentado de todos os processos, anos depois. Palocci nunca perdeu uma eleição. Tem 51 anos e pode voltar ao poder no futuro, se assim o quiser. Estou certo de que apoio financeiro e político não faltarão.

No DoLaDoDeLá

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O Chefe de Redação

Um comentário em “Caiu o homem da mala, calcanhar de Aquiles da presidenta Dilma

  • 8 de junho de 2011 em 23:57
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    “Palocci simbolizava a escolha de um nome completamente comprometido com o mundo financeiro e o grande capital. Em 2003, Lula precisava de um nome assim. FHC entregara o país à beira da bancarrota. Palocci cumpriu essa tarefa. Depois, foi derrubado pela soberba.” (Rodrigo Vianna, o Escrevinhador)

    Voltou por imposição das forças políticas que apoiaram Dilma. Só que…

    “A queda de Palocci – o fiador, amigo dos banqueiros – reitera um princípio histórico do capital: ele admite novos-ricos, mas somente enquanto estes lhe sejam úteis. Quando deixam de sê-lo, são largados impiedosamente à beira da estrada. O capital não tem amigos, só interesses.” (Idelber Avelar – Outro Olhar)

    Boas reflexões, mas também concordo que ele era uma “mala” pesada (e perigosa) demais para a Dilma carregar por muito mais tempo. Atendeu a princípio setores das forças que a apoiaram e, na primeira chance, se livrou do abacaxi e enfraqueceu o PT-SP para felicidade do PT-Brasil.

    Agora sim, com a gerentona paranaense Gleisi Hoffmann o governo ficou mais com a cara de Dilma.

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