Ação coordenada espalha energia negativa nas relações sociais

Deputado de extrema-direita

A FALANGE

O Chefe de Redação

Os últimos meses transcorriam em relativa calmaria na internet após o auge da última campanha eleitoral — com seus altos teores de hipocrisia fundamentalista — que culminou com a eleição de Dilma Rousseff, imediatamente acompanhada da manifestação racista de Mayara Petruso e colegas de Twitter contra os nordestinos.

De lá até pouco mais de um mês o Brasil seguia a sua rota de amadurecimento na mais santa paz — salvo eventos isolados, embora lamentáveis, como a agressão a gays em São Paulo com lâmpadas fluorescentes e o ataque de um demente numa escola do Rio de Janeiro. O cenário internacional foi eventualmente dominado pela tragédia do terremoto seguido de tsunami e vazamento nuclear no Japão.

Até que uma série de coincidências, ou melhor, incidentes aparentemente coordenados demais para se considerar obra do mero acaso, desencadearam uma perigosa onda de intolerância nos meios de comunicação e na Internet, em particular através das redes sociais e do Twitter.

O ponto de ruptura é facilmente identificável e lembra bastante os manjados roteiros dos filmes de terror de quinta categoria: uma espécie de falange ou grupo de almas penadas, encarnadas sob a forma humana e determinada a cumprir seus desígnios sinistros, desprega ou arranca o último selo da tampa de alguma catacumba amaldiçoada para soltar de uma só tacada todos os espíritos demoníacos que nas trevas cumprem suas sentenças de eterna danação pelos males causados à Humanidade.

Essa alegoria cinematográfica me foi lembrada por um grupo de amigos que passou a acompanhar a sucessão de eventos que contaminaram o astral do noticiário a partir do momento em que um bando de “humoristas” tomou a iniciativa de dar visibilidade a um político extremista e, com isso, estimular a pregação do ódio contra os seus semelhantes.

Foi o terremoto que deu o start no atual tsunami verbal que invade e contamina de forma incontrolável as telas de tevê e ecrãs de aparelhos eletrônicos com as mais fétidas manifestações de racismo, homofobia, misoginia e segregacionismo social.

Até onde isto vai se estender e quando vai parar, se é que eles vão deixar, não há como antever. O fato concreto é que essa energia negativa está totalmente liberada e avançando sobre tudo com extrema velocidade e alto poder de destruição.

Wallpaper de Terror

QUEM PROTEGE JAIR BOLSONARO?

Por Paulo Moreira Leite *

Leio na internet que o deputado Jair Bolsonaro defendeu a tortura. É uma vergonha mas não é uma surpresa. Os ataques de Bolsonaro a democracia vêm em sequência. O último havia sido ofender os brasileiros negros a partir de uma suposta crítica ao comportamento de Preta Gil.

Bolsonaro já defendeu a execução sumária de presos comuns. Sua aparição na vida pública civil foi feita por uma ameaça exótica mas violenta: anos atrás, ele prometia cometer um atentado terrorista para protestar contra a democratização.

Na verdade, Bolsonaro não impressiona. No mundo inteiro existem políticos desse tipo. O aspecto preocupante é que este comportamento não diz respeito a um deputado do Rio de Janeiro, mas a todos nós.

Por que Bolsonaro pode se comportar dessa maneira? Quem lhe dá o direito de ser tão descarado? Por que suas palavras não são repudiadas por todos e cada um? Por que os jornais publicam e repercutem aquilo que diz, como se fosse parte legítima do debate democrático? Por que seu discurso é difundido, ampliado?

Nos tempos em que vivi na França, no início dos anos 80, assisti ao crescimento de uma estrela da ultra-direita local, Jean-Marie Le Pen, fundador do Front National.

Le Pen é um político fascista, que defende uma política de segregação contra os imigrantes árabes que vivem no país e seus filhos, que já detêm cidadania francesa. Mas há uma diferença notável entre Le Pen e Bolsonaro e ela reside no país em que vivem.

Le Pen tem um discurso extremista mas cuidadoso. No discurso, ele não ataca os imigrantes — limita-se a defender os franceses. Diz: “a França para os franceses”. Não é explícito, mas obscuro. Todo mundo sabe o que ele quer dizer, mas o próprio Le Pen não o faz. Por que?

Porque a sociedade francesa não permite. A força das ideias democráticas naquele país é tal que não se aceita que as teses anti-democráticas sejam proferidas em público, de modo exibicionista e ofensivo, como faz Bolsonaro.

Le Pen, que recentemente foi sucedido por sua filha no comando da organização, sempre foi obrigado a esconder seus pensamentos. Todo mundo sabe que ele é um nostálgico do império colonial francês, vencido por tropas comunistas na Indochina e depois pela revolução nacionalista na Argélia.

Mas, ao contrário do que faz Bolsonaro, incapaz de esconder seu apego ao regime de 1964, Le Pen não faz propaganda do colonialismo nem prega a submissão das antigas colônias. Apresenta-se como defensor dos franceses “em primeiro lugar”.

Muitas pessoas podem até achar que é melhor ter um Bolsonaro que diz o que pensa do que um Le Pen que só diz meias-verdades. Bobagem. As meias-verdades de Le Pen são um limite político, imposto pelo regime democrático de seu país, que não admite ataques a direitos e garantias fundamentais.

Os franceses acertaram suas contas com a história. Não se discute, por exemplo, se a adesão a Adolf Hitler, na Segunda Guerra Mundial, foi um ato com aspectos positivos e negativos para a história da França. Foi um ato de traição, indefensável. E é isso.

O discurso solto e descontrolado de Bolsonaro mostra que nossa democracia está exposta e que há quem aposte em torná-la frágil e precária.

E aí é digno perguntar: quem protege Bolsonaro? Quem lhe garante audiência?

A resposta não se encontra naquela antropologia de almanaque, segundo a qual todos os problemas da humanidade residem na “cultura” de determinado povo. Quem ainda achar que o Brasil não possui “cultura democrática” suficiente para organizar a vida pública precisa ler os jornais de 1984, quando ocorreu a campanha pelas Diretas-Já ou, quinze anos depois, quando o país foi às ruas para pedir o impeachment de um presidente acusado de corrupção.

Bolsonaro é expressão de interesses políticos e não de uma suposta vocação cultural.

Embora o Brasil viva hoje o mais prolongado período democrático de sua história, uma parcela ponderável e influente da sociedade brasileira cultiva uma visão instrumental e peculiar de democracia.

Conforme essa concepção, os regimes democráticos são ótimos quando servem a nossos interesses, ajudam nossos amigos e perseguem nossos adversários. Mas podem ser descartados quando deixam de cumprir qualquer uma das condições descritas acima.

São forças que promovem o enfraquecimento da democracia, fazem o possível para desmoralizar instituições identificadas com a vontade popular e adoram sabotar e exagerar as deficiências do sistema civil.

São essas forças que alimentam Jair Bolsonaro.

Via Sempre Nômade

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O Chefe de Redação

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