Você tem um bom HQEH? Coeficiente que mede Homem Que É Homem!


Luis Fernando Veríssimo

HQEH – PERO NO MUCHO…


A Cachaça da Happy Hour

Da série “aquelas coisas ótimas que a gente já havia lido há uns dez anos mas que de vez em quando recebe de novo por email repassado por algum amigo”:

Se você não sabe se carrega dentro de você um bom índice HQEH (Homem que é Homem), faça o teste para não morrer com a dúvida atroz. Leia esta série de situações, estude-as, pense, reflita e depois decida como você reagiria em cada uma delas. A resposta revelará o seu coeficiente de HQEH. Se pensar muito, nem precisa responder: você não é um HQEH. Até porque HQEH não pensa muito mesmo…

SITUAÇÃO 1

Você está num restaurante com nome francês. O cardápio é todo escrito em francês. Só o preço está em reais. Muitos reais.

Você pergunta o que significa o nome de um determinado prato ao maître. Você tem certeza que o maître está se esforçando para não rir da sua pronúncia.

O maître levará mais tempo para descrever o prato do que você para comê-lo, pois o que vem é uma pasta vagamente marinha em cima de uma torrada do tamanho aproximado de uma moeda de um real, embora custe mais de cem.

Você come de um golpe só, pensando no que os operários são obrigados a comer. Com inveja.

Sua acompanhante pergunta qual é o gosto e você responde que não deu tempo para saber.

0 prato principal vem trocado. Você tem certeza que pediu um “Boeuf à quelque chose” e o que vem é uma fatia de pato sem qualquer acompanhamento. Só. Bem que você tinha notado o nome: “Canard melancolique”.

Você a princípio sente pena do pato, pela sua solidão, mas muda de idéia quando tenta cortá-lo. Ele é um duro, pode agüentar.

Quando vem a conta, você nota que cobraram pelo pato e pelo “boeuf’ que não veio.

Você:

a) paga assim mesmo para não dar à sua acompanhante a impressão de que se preocupa com coisas vulgares como o dinheiro, ainda mais o brasileiro;

b) chama discretamente o maître e indica o erro, sorrindo para dar a entender que, “Merde, alors”, estas coisas acontecem;

c) vira a mesa, quebra uma garrafa de vinho contra a parede e, segurando o gargalo, grita: “Eu quero o gerente e é melhor ele vir sozinho!

SITUAÇÃO 2

Você foi convencido pela sua mulher, namorada ou amiga — se bem que HQEH não tem “amigas”, quem tem “amigas” é viado — a entrar para um curso de Sensitivação Oriental.

Você reluta em vestir a malha preta, mas acaba sucumbindo. O curso é dado por um japonês, provavelmente viado.

Todos sentam num círculo em volta do japonês, na posição de lótus. Menos você, que, como está um pouco fora de forma, só pode sentar na posição do arbusto despencado pelo vento.

Durante 15 minutos todos devem fechar os olhos, juntar as pontas dos dedos e fazer “rooommm”, até que se integrem na Grande Corrente Universal que vem do Tibete, passa pelas cidades sagradas da Índia e do Oriente Médio e, estranhamente, bem em cima do prédio do japonês, antes de voltar para o Oriente.

Uma vez atingido este estágio, todos devem virar para a pessoa ao seu lado e estudar seu rosto com as pontas dos dedos. Não se surpreendendo se o japonês chegar por trás e puxar as suas orelhas com força para lembrá-lo da dualidade de todas as coisas.

Durante o “rooommm” você faz força, mas não consegue se integrar na grande corrente universal, embora comece a sentir uma sensação diferente que depois revela-se ser câimbra.

Você:

a) finge que atingiu a integração para não cortar a onda de ninguém;

b) finge que não entendeu bem as instruções, engatinha fazendo “rooommm” até o lado daquela grande loura e, na hora de tocar o seu rosto, erra o alvo e agarra os seios, recusando-se a soltá-los mesmo que o japonês quase arranque as suas orelhas;

c) diz que não sentiu nada, que não vai seguir adiante com aquela bobagem, ainda mais de malha preta, e que é tudo coisa de viado.

SITUAÇÃO 3

Você está numa daquelas reuniões em que há lugares de sobra para sentar, mas todo mundo senta no chão.

Você não quis ser diferente, se atirou num almofadão colorido e tarde demais descobriu que era a dona da casa.

Sua mulher ou namorada está tendo uma conversa confidencial, de mãos dadas, com uma moça que é a cara do Charlton Heston, só que de bigode.

O jantar é à americana e você não tem mais um joelho para colocar o seu copo de vinho enquanto usa os outros dois para equilibrar o prato e cortar o pedaço de pato, provavelmente o mesmo do restaurante francês, só que algumas semanas mais velho.

Aí o cabeleireiro de cabelo mechado ao seu lado oferece:

— Se quiser usar o meu…

— O seu…?

— Joelho.

— Ah…

— Ele está desocupado.

— Mas eu não o conheço.

— Eu apresento. Este é o meu joelho.

— Não. Eu digo, você…

— Eu, hein? Quanta formalidade. Aposto que se eu estivesse oferecendo a perna toda você ia pedir referências. Ti-au.

Você:

a) resolve entrar no espírito da festa e começa a tirar as calças;

b) leva seu copo de vinho para um canto e fica, entre divertido e irônico, observando aquele curioso painel humano e organizando um pensamento sobre estas sociedades tropicais, que passam da barbárie para a decadência sem a etapa intermediária da civilização;

c) pega sua mulher ou namorada e dá o fora, não sem antes derrubar o Charlton Heston com um soco.

Se você escolheu a resposta A para todas as situações, não é um HQEH. Se você escolheu a resposta B, não é um HQEH. E se você escolheu a resposta C, também não é um HQEH. Um HQEH não responde a testes. Um HQEH acha que teste é coisa de viado.

* Texto atribuído a Luis Fernando Veríssimo e que teria sido extraído do livro “As mentiras que os homens contam”, Editora Objetiva – Rio de Janeiro, 2000. Se é ou não é, pouco importa… e ainda tem uns ‘cartesianos’ que discutem por isso… rsrsrs.

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Blog da Nívia de Oliveira Castro

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