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Veríssimo, Gigolô das Palavras, e Heloísa Ramos, Por Uma Vida Melhor

Enviado por em 25 de maio de 2011 – 18:586 Comentários

Por Uma Vida Melhor - Heloísa Ramos

O GIGOLÔ DAS PALAVRAS

A polêmica em que a velha mídia se meteu sobre o livro didático ‘Por Uma Vida Melhor’, da professora Heloísa Ramos, expõe a vulgaridade de seus ‘analistas’ e a desonestidade intelectual de quem lhes dá crédito. Mas, em contrapartida, traz de positivo o reencontro, por exemplo, com uma crônica inacreditavelmente atual de Luis Fernando Veríssimo, intitulada ‘O Gigolô das Palavras’. O texto, delicioso, foi publicado no ano de 2008, em ‘Mais Comédias para Ler na Escola’, da Editora Objetiva.

A Cachaça da Happy Hour

(…) A linguagem, qualquer linguagem, é um meio de comunicação e deve ser julgada exclusivamente como tal. Respeitadas algumas regras básicas da Gramática, para evitar os vexames mais gritantes, as outras são dispensáveis.

A sintaxe é uma questão de uso, não de princípios. Escrever bem é escrever claro, não necessariamente certo.

Por exemplo: dizer “escrever claro” não é certo mas é claro, certo? O importante é comunicar. (E quando possível surpreender, iluminar, divertir, mover… Mas aí entramos na área do talento, que também não tem nada a ver com Gramática)

A Gramática é o esqueleto da língua. Só predomina nas línguas mortas, e aí é de interesse restrito a necrólogos e professores de Latim, gente em geral pouco comunicativa.

Aquela sombria gravidade que a gente nota nas fotografias em grupo dos membros da Academia Brasileira de Letras é de reprovação pelo Português ainda estar vivo. Eles só estão esperando, fardados, que o Português morra para poderem carregar o caixão e escrever sua autópsia definitiva.

É o esqueleto que nos traz de pé, certo, mas ele não informa nada, como a Gramática é a estrutura da língua mas sozinha não diz nada, não tem futuro. As múmias conversam entre si em Gramática pura.

(…) A minha implicância com a Gramática na certa se deve à minha pouca intimidade com ela. Sempre fui péssimo em Português.

Mas veja você, a intimidade com a Gramática é tão indispensável que eu ganho a vida escrevendo, apesar da minha total inocência na matéria.

Sou um gigolô das palavras. Vivo às suas custas. E tenho com elas exemplar conduta de um cáften profissional.

Abuso delas. Só uso as que eu conheço, as desconhecidas são perigosas e potencialmente traiçoeiras. Exijo submissão. Não raro, peço delas flexões inomináveis para satisfazer um gosto passageiro.

Maltrato-as, sem dúvida. E jamais me deixo dominar por elas.

Não me meto na sua vida particular. Não me interessa seu passado, suas origens, sua família nem o que outros já fizeram com elas. Se bem que não tenho o mínimo escrúpulo em roubá-las de outro, quando acho que vou ganhar com isto.

As palavras, afinal, vivem na boca do povo. São faladíssimas. Algumas são de baixíssimo calão. Não merecem o mínimo respeito.

Um escritor que passasse a respeitar a intimidade gramatical das suas palavras seria tão ineficiente quanto um gigolô que se apaixonasse pelo seu plantel. Acabaria tratando-as com a deferência de um namorado ou a tediosa formalidade de um marido. A palavra seria a sua patroa!

Com que cuidados, com que temores e obséquios ele consentiria em sair com elas em público, alvo da impiedosa atenção dos lexicógrafos, etimologistas e colegas. Acabaria impotente, incapaz de uma conjunção.

A Gramática precisa apanhar todos os dias pra saber quem é que manda.

* Completo no Conhecimento é Tudo

* * *

Blog da Nívia de Oliveira Castro

6 Comentários »

  • Antonio Bernardo disse:

    Não adianta, prezada professora Nívia. Quando a mídia enfia a marteladas diárias algum prego enferrujado nos miolos de algum cabeça-dura não tem LUIS Fernando Veríssimo que faça a regeneração da área necrosada.
    Então esses prejudicados ficam depois vagando feito zumbis pela rede para tentar desqualificar as brilhantes reflexões dos outros, com raciocínios desconexos e fora do contexto.
    É o caso de um comentário que acabei de ver aqui. Não sinto raiva não, mas pena por alguém ter desperdiçado seu precioso(?) tempo para teclar uma bobagem tão descartável e insignificante. Além do que não entendeu lhufas do conteúdo subjacente no texto do cronista gaúcho. É incrível!
    Enfim, eu, de minha parte, vou fazer entusiasmado o que costumo sempre que me deparo com postagens desse nível: tocar em frente, espalhar para toda a minha rede de contatos, em sua maioria professores, como nós.
    Com os respeitos do fã e leitor assíduo Antonio Bernardo.

    [Responder]

    Mariamante disse:

    Você é muito gentil, Bernardo. Quanto ao referido comentário, é trollzinho. De leve, mas é troll… [rsrs]

    [Responder]

  • Rosinha disse:

    Esse texto do Fernando Veríssimo é fruto do talento do autor. É pura criatividade.Ele, está claro, ironiza ao dizer que não conhece a Gramática.Só pode brincar com as palavras da maneira como ele o faz, quem as conhece e conhece as normas que as regem com profundidade.
    Relacionar este texto poético e criativo com a publicação e uso do livro da Professora Heloísa é,para dizer o mínimo,um equívoco!

    [Responder]

    Tarsila - Professora disse:

    E por que não? Achei que caiu feito uma luva, super perspicaz. Às vezes é preciso ser um pouco menos maniqueísta, morô?

    [Responder]

    Adilson disse:

    Ou menos CARTESIANA.
    …….kkkkkkkkkkkk…….
    Abraço,
    Adilson

    [Responder]

  • Songa Monga disse:

    UAU!!! Que aula, que achado, que maravilha esse Veríssimo!!!

    Tudo perfeito, minha querida amiga e mentora. Só discordo dos adjetivos reservados aos “analistas” e seus (deles) leitores.

    Você é muito centrada e educada, professora. Se fosse lá no meu “porta-voz da macacada” eu chutava o pau da barraca e gritava bem alto, com todas as letras:

    – CAFAJESTAGEM!!!

    [Responder]

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