‘Trollagem do bem’ contra racismo e homofobia dos ‘bolsonaros’

Racismo e Homofobia

TROLLAGEM DO BEM

Por Cynara Menezes *

A entrevista do deputado federal Jair Bolsonaro ao programa CQC, da rede Bandeirantes, em que ataca a cantora Preta Gil com insultos racistas, colocou a internet em polvorosa.

Bolsonaro, assumidamente homofóbico, diz agora, na defesa da representação movida contra ele, ter confundido a palavra “negro” com “gay” na pergunta feita por Preta: “Se seu filho se apaixonasse por uma negra, o que você faria?”. Um subterfúgio do parlamentar, que não tem a menor vergonha de discriminar o próximo – desde que não seja crime e não corra o risco de ser preso.

A discussão sobre o preconceito magnetiza as redes sociais.

Na campanha eleitoral, os ataques aos nordestinos teve um eficiente contra-ataque no Twitter e foi parar nos jornais. Em seguida, a agressão a rapazes gays na avenida Paulista detonou na rede a campanha contra a homofobia.

Com Bolsonaro, vieram o racismo e o preconceito contra os gays ao mesmo tempo, catalisando as opiniões e transformando o Twitter numa passeata online de ativismo e “trollagem” – mensagens discordantes, irônicas, gozadoras e até agressivas, que o cidadão comum envia a figuras públicas que utilizam o microblog.

Se você está no Twitter, é para se trollar. Não tem jeito.

Geralmente, personalidades estrilam quando algo que publicam incomoda muita gente e recebe de volta tuitadas críticas.

Um caso conhecido foi o da cantora Gal Costa, que sofreu trollagem quando, ao reclamar do técnico de ar-condicionado, atribuiu o caso à célebre “preguiça baiana”. Acabou deixando o Twitter.

Jornalistas, políticos, apresentadores de TV, todo mundo já foi alvo dos trolls. Faz parte do jogo.

É verdade que há trolls e trolls. Gal, por exemplo, queixou-se de grosserias. Certamente ocorreu pior com Bolsonaro e seus filhos, o vereador Carlos Bolsonaro e o deputado estadual Flávio Bolsonaro (sim, ele já tem herdeiros na política).

Mas se não existissem as redes sociais, que tribuna teriam as pessoas para manifestar seu desacordo e indignação com opiniões de gente pública que consideram insultantes?

O deputado tem o seu palco em Brasília, em pleno Congresso Nacional, e nos jornais mais importantes. É um ignorante privilegiado em direitos, regalias e, mais importante, no uso da palavra.

Na velha mídia, houve quem saísse em defesa de Bolsonaro, de sua “liberdade de expressão”.

Ora, trollar também é exercitar a liberdade de expressão, no sentido do debate, do contraditório.

Sem a internet e sem os poucos espaços em papel que se dedicaram a apontar no deputado federal um desvio ético, a última palavra seria dele. Continuaria a ofender orientações sexuais que não a sua, a fazer a defesa exaltada das ditaduras militares e a bradar contra os direitos humanos e as cotas raciais.

Antes da internet, exceto seus eleitores, ninguém podia dar resposta alguma a um político reacionário. Agora todo mundo pode.

Ainda que não esteja no Twitter ou no Facebook, a pessoa pública pode se tornar notícia a partir das redes sociais, para o bem ou para o mal. Pode ser elogiado e celebrado, mas também pode ser criticado e espinafrado.

Não se pode apear um político do cargo por ser intolerante, pelo menos por enquanto. Não se pode levar à cadeia um corrupto – nem um homofóbico, antes de a lei ser aprovada. Mas pode-se mobilizar pessoas, recolher assinaturas, pressionar por iniciativas no Congresso e nos governos.

E, sobretudo, é permitido trollar.

* Na revista CartaCapital

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