Todos podem – e devem – ser sinceros. Mas jamais grosseiros!

QUEM FALA TUDO O QUE QUER ATRAI O ÓDIO

Quem fala o que quer ouve o que não quer

“Bandido bom é bandido morto! Em defesa da moral e dos bons costumes! Aborto é assassinato! Tem que se dar o respeito, mulher de roupa curta é vadia! Não sou contra os gays, sou contra a viadagem! Portanto, abaixo a ditadura gay!”

Foi da boca do mesmo ex-colega que soltou as pérolas acima que ouvi a célebre frase: “eu falo o que penso, é por isso que me odeiam”.

Sinto muito por ser eu a te falar isso, mas ninguém te odeia por “falar o que pensa”, te odeiam por você ser um imbecil que prega o ódio.

Esse parece ser um pensamento comum: a quantidade de gente que vemos sendo odiosa – seja com opiniões idiotas como as  acima citadas, seja distribuindo ofensas gratuitas mundo afora – e se sustentando nessa linha de raciocínio (do falo o que penso) é incrível.

O pior é que essas pobres almas realmente acreditam nessa tese. Em nenhum momento lhes passa pela cabeça que são tão inestimadas por serem grosseiras ou intolerantes.

Não! Elas são odiadas por serem sinceras.

Pobrezinhas, estão fazendo algo tão nobre, as pessoas deviam agradecê-las pela gentileza. Ao invés disso ficam com raiva?! “Que espécie de mundo é esse onde eu não posso nem ser rude sem que desgostem de mim?”

Liberdade de expressão, clamam! O que não sabem é que essa é uma via de mão dupla.

Explico como funciona: você tem toda a liberdade pra falar asneiras ofensivas e discriminatórias e, por definição, a sociedade tem todo o direito de te achar babaca e ir até a porta do seu bar pra expressar isso se for necessário.

O mesmo fenômeno – o de dar algum mínimo crédito a alguém pelo fato de a pessoa ter sido sincera – ocorre quando alguém dá uma declaração polêmica.

“Pelo menos não foi hipócrita” se comentou bastante quando Jair Bolsonaro declarou que parlamentar não deve andar de ônibus.

Quando a saltadora russa Yelena Isinbayeva fez um discurso homofóbico em favor da lei anti-gay de Putin, muitos elogiaram a “personalidade” da moça.

De nada vale uma pessoa ser sincera ou falar o que pensa se isso é ofensivo, burro etc. Não existe mérito algum em não ser hipócrita: é o mínimo que se espera de uma pessoa decente.

Ter personalidade mesmo é ser sincero sem ser grosseiro com ninguém nem pregar discurso de ódio. Isso sim é digno de mérito.

Ao que parece, se surgisse um Hitler na nossa sociedade, ele teria inúmeros admiradores justamente por “falar o que pensa”.

O regime nazista, na verdade, seria bastante aceito pela sociedade: o führer seria aplaudido por “não ser hipócrita”, enquanto os soldados seriam isentos de suas responsabilidades como cidadãos, pois “estavam só cumprindo ordens”.

Dar mérito a quem promove intolerância por estar usufruindo da liberdade de expressão é como aplaudir o misógino que estupra e mata mulheres por agir de acordo com o que pensa. Não seja essa pessoa.

Não seja essa pessoa! É isso que se quer que você tire desse texto.

Não seja aquele que acha que é odiado por “falar o que pensa”. Não seja aquele que dá mérito a imbecis que falam merda porque “pelo menos foram sinceros”.

Você pode – e deve! – ser sincero. Mas sem ser grosseiro.

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