Rede Globo: farsa da bolinha de papel pode derrubar Ali Kamel

Novo logotipo da TV Globo

Do Blog Chefe de Redação

Com o monopólio ameaçado pelos erros cometidos pelos herdeiros de Roberto Marinho, a Rede Globo de Televisão ensaia mudanças no comando executivo da empresa. Arcaica e mastodôntica, a alteração será apenas cosmética, mera troca de nomes. Há quem aposte as fichas no declínio cada vez mais rápido e até na extinção do império global em horizonte nem tão distante assim.

MUDANÇA DE COMANDO NA TV GLOBO

Por Laerte Braga, Jornalista

Os estragos causados pelo episódio da bolinha de papel atirada contra o candidato José Serra são de grande monta na Rede Globo.

A reação indignada de alguns jornalistas, em São Paulo principalmente, a preocupação com o bombardeio e desafios de outras redes em torno do noticiário do Jornal Nacional sobre o episódio, tudo isso e muitos fatos outros, estão levando a direção geral do grupo a avaliar se promovem Ali Kamel para cima e afastam o todo poderoso do departamento de jornalismo, ou se simplesmente entram num acordo e Kamel vai cantar noutra freguesia.

A bolinha de papel não se desmanchou na água e acabou sendo a gota que faz transbordar.

A decisão será tomada após as eleições. Carlos Augusto Montenegro, diretor presidente do Ibope, aumentou as preocupações do comando do grupo ao levar a informação que a bolinha de papel terá custado alguns pontos preciosos a José Serra nas intenções de votos e Dilma teria hoje algo em torno de 16% de vantagem sobre o tucano.

O temor da Globo não está no fato de o Jornal Nacional ter apresentado um parecer forjado em torno do incidente envolvendo José Serra. A mentira é intrínseca ao grupo. Mas no risco de crescimento das redes concorrentes, especialmente da TV Record – a mais próxima nos números de audiência e no que isso pode representar a curto, médio ou longo prazo para o “esquema” global.

O império de Roberto Marinho, pela primeira vez, parece estar sentindo o golpe, se vendo nas cordas e apostando fichas numa improvável eleição de José Serra, mesmo assim, a um preço alto demais.

Para alguns setores do comando do grupo a empresa não é como a revista Veja. Tem preocupações com o parecer ser e não pode entrar numa zona de turbulência sem perspectiva de uma saída tranqüila. Ou pelo menos tenta fazer crer que é diferenciada. Banditismo de estilo mais nobre. Sangue azul.

A sorte de Ali Kamel está ligada à eleição de José Serra e a própria Globo sabe que, a essa altura do campeonato, essa chance é mínima. Nem coelho na cartola, nem uma legião de coelhos.

E há quem entenda que o diretor de jornalismo comprometeu a credibilidade da rede e é preciso recuperá-la o mais rápido possível. O nível a que a grande mídia, Globo à frente, levou a campanha – o mais baixo da história das campanhas presidenciais no Brasil – pode afetar para além do Jornal Nacional, do departamento de jornalismo, todo o grupo.

Um episódio mais ou menos semelhante aconteceu em 1990 quando Armando Nogueira deixou o departamento de jornalismo da rede por conta do escândalo da Proconsult. Àquela época o fato revestiu-se de tal gravidade que algo inimaginável aconteceu. Brizola foi aos estúdios da Globo numa tentativa de atenuar os prejuízos causados com outra tentativa, a de fraude na totalização dos votos para o governo do estado do Rio.

Foi o primeiro momento na história de impunidade da Globo que a turma se viu acuada.

Kamel não age sozinho e nem monta todo esse sórdido esquema de mentira à revelia dos donos do Império. Faz o que faz com aprovação dos senhores do “negócio”. A diferença é que os senhores do “negócio” se preservam nos castelos do baronato Marinho e têm, sempre, um bode expiatório à mão.

Sem falar nos interesses que acoplam a Globo a um todo que ultrapassa o setor de comunicações. Os braços são longos a toda a atividade econômica no País em se tratando de interesses escusos. Ou seja, há necessidade de prestar conta aos que pagam e ditam os caminhos do grupo.

Nesta campanha eleitoral os interesses bilionários em jogo e a aposta de todas as fichas na campanha de José Serra parecem ter deixado cegos os moradores do castelo e do PROJAC, uma espécie de centro de mentiras, boatos e coisas más.

A turbulência chegou ao auge no laudo falso do perito Ricardo Molina, prontamente desmentido pelas redes concorrentes e por um fenômeno que a Globo ainda não absorveu inteiramente: a blogosfera. Ou seja, o conjunto de blogs independentes – de grandes e anônimos jornalistas ou não – a derrubar em cima de cada mentira, a versão global.

Hoje o número de internautas no País é significativo, a repercussão dos comentários em blogs, sites, portais e redes sociais acaba por criar uma força quase tão poderosa quanto a Globo.

Quase tão poderosa? É a avaliação de alguns especialistas pelo simples fato que, nesta eleição, a candidata do PT vence por larga margem entre os eleitores de renda mais baixa (políticas sociais de Lula) e o prejuízo à Globo acontece nas chamadas classes médias, divididas entre os dois candidatos e ponderável parcela escapando do fascínio do plim-plim.

O poder aquisitivo dos brasileiros aumentou nesses últimos oito anos, há um orgulho nacional com o papel do Brasil no mundo e o que esse novo perfil provoca no mundo da comunicação não foi ainda absorvido nem tratado corretamente pela Globo e pela mídia privada como um todo – o que quer dizer que nessa nova realidade ainda tateiam, apesar de todos os esforços para diminuir o impacto da transformação.

Foi visível na campanha de Obama, é visível na campanha de Dilma.

Tornou-se mais difícil mentir e enganar, características do grupo e da mídia privada.

O que não quer dizer que até domingo, 31 de outubro, dia da votação, todo o grupo não vá se empenhar na campanha de José Serra e na onda de mentiras e boatos que possam prejudicar Dilma Roussef.

Nem tem como, equivaleria a um pouso de barriga de um avião. Os riscos de um incêndio são altos demais numa eventual mudança de posição (fora de propósito) ou correção de rota para uma área neutra.

A gênese da Globo é a mentira e o DNA preserva suas principais características até o último suspiro.

O que assusta os donos do “negócio” para além da derrota eleitoral? Um monte de fatores.

Surge uma discussão no Brasil impensável há meses, falo de proporções. Até que ponto é possível a uma empresa/família manter o monopólio das comunicações e associada a empresas outras (menores), mas fechando o cerco em torno de quem ainda lê jornal impresso, revistas e que tais?

O que é de fato liberdade de expressão? A mentira? O engajamento em interesses de grupos econômicos nacionais e estrangeiros (associados)?

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Em tempo: Não propugnamos a troca de 6 por meia dúzia, que significaria a substituição do monopólio da Globo pelo monopólio da IURD-Edir Macedo-Record. Pelo contrário, defendemos a pluralidade dos meios de comunicação, ainda mais, em tempos de TV digital, o que exigirá regulamentação de artigos da Consituição Federal, quem sabe, de um novo marco regulatório da comunicação para dar conta das novas tecnologias [as que existem e as que ainda estão para serem desenvolvidas].

Original extraído do Dialógico

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Blog Chefe de Redação

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