Porco usado como moeda traz paz a sociedade tribal na Papua-Guiné

Guerreiro de Papua Guiné

SISTEMA SUÍNO DE COMPENSAÇÕES

Do blog ECOnsciência

Distribuir pedaços de porco pode não parecer a definição de uma missão de paz das Nações Unidas, mas o ritual funcionou em uma sociedade altamente belicosa de Papua-Nova Guiné.

O resgate de uma antiga prática costumeira, que inclui compensações na forma da principal “moeda” local, o suíno, colocou fim a um período intenso de guerras que durou cerca de quinze anos.

Entre 1991 e 2010, houve cerca de 500 guerras entre clãs da sociedade Enga.

Os conflitos mataram em torno de 1% de uma população estimada entre 400 mil a 500 mil pessoas. Seria o equivalente a matar 1,9 milhão de brasileiros (1% de 190 milhões). Os clãs têm entre 350 a 1.000 pessoas.

Guerras, no caso, são “conflitos armados organizados entre comunidades políticas, nos quais o fim é definido por acordos de paz”.

A definição é dos autores do estudo publicado na revista “Science” — a antropóloga Polly Wiessner da Universidade de Utah em Salt Lake City, e Nitze Pupu, um advogado de Papua-Nova Guiné.

Guerreiros de Papua Guiné

Os Enga viviam praticamente isolados até a década de 1950, quando o país passou a ser administrado pela Austrália. Lutavam então com arco e flecha.

Mas um grupo de jovens mais violentos começou a importar e usar armas de fogo como fuzis M-16 e escopetas a partir de 1990. O país se tornou independente em 1975.

A letalidade dos conflitos aumentou muito em consequência. O número médio de mortos por guerra era 3,7 no período pré-colonial e subiu para 17,8 entre 1991 e 2000. Os guerreiros tinham entre 17 e 28 anos; alguns agiam como mercenários, apelidados de “Rambos”.

Em vinte anos morreram 4.816 pessoas.

Com a sociedade em estado caótico, começou um movimento a partir de 2005 para banir a violência usando como principal instrumento cortes judiciais compostas por anciãos. Essas cortes locais são sancionadas pelo Estado, embora não façam parte de seu aparato formal.

Em vez de punir com penas como prisão, como seria o caso da justiça ocidental, os anciões usavam uma forma de “justiça restaurativa”, impondo multas e compensação — em geral na forma de porcos.

No período de 1991 a 1995 o número de guerras com entre 51 e 300 mortos era de 9%; o índice caiu para 1% entre 2006 e 2010.

Guerreiro primitivo mascarado

Os pesquisadores obtiveram dados do período pré-colonial e das guerras atuais.

Há cerca de 350 anos os Enga passaram a cultivar a batata doce. Isso permitiu alimentar os porcos com mais facilidade. Mas as migrações em busca de terras férteis contribuíram para disseminar as guerras.

Em torno de 1850 surgiu o sistema de pagar compensações para restabelecer a paz. O sistema caiu em desuso durante o período colonial.

Mas a crise gerada pelas armas de fogo importadas fez o papel das cortes renascer. Segundo Wiessner, os Enga optaram pela paz por três motivos principais.

Primeiro, a sociedade estava totalmente arruinada economicamente. A guerra deixou de ser vista como algo aceitável para vingar um insulto, uma morte, um estupro.

O segundo motivo foi a forma de atuação das cortes, restaurando relações entre os clãs. E a compensação é cara, segundo os autores: uma média de 26 porcos e 500 dólares para cada morte desde 1991.

E o terceiro fator foi a influência do cristianismo, uma “ideologia da paz”, pois a maior parte dos Enga se considera cristão.

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