Pare de falar abobrinhas! Solte o verbo de forma clara e objetiva

Jogando conversa fora

NÃO JOGUE CONVERSA FORA

A Cachaça da Happy Hour

“Entre as palavras recém-nascidas, a taxa de mortalidade é elevada. Muitas padecem de graves defeitos congênitos. São frágeis, mal respiram, não resistem ao duro processo da seleção natural”. (Agualusa)

DICAS PARA TRANSMITIR AS IDEIAS COM CLAREZA

Por Caroline Marino *

O escritor angolano José Eduardo Agualusa é tido como o predileto da presidente brasileira, Dilma Rousseff. Em seu livro Milagrário Pessoal, ele faz uma crítica às palavras fracas, muitas das quais lotam o vocabulário corporativo.

A protagonista da história é uma jovem linguista cujo trabalho é usar um software para descobrir novas palavras — os neologismos — em jornais e revistas e, quando for o caso, registrá-las em dicionário.

Mas isso pouco acontece. As gírias que repetimos no trabalho, mostra o escritor, pouco contribuem para a comunicação e não merecem a inclusão oficial em nosso vocabulário.

Veja o que ele diz neste trecho do livro: “entre as palavras recém nascidas, a taxa de mortalidade é elevada. Muitas padecem de graves defeitos congênitos. São frágeis, mal respiram, não resistem ao duro processo da seleção natural”.

O trabalho é a fonte primária dessas palavras fracas e desprovidas de sentido e precisão, que dificultam a comunicação e atrapalham o desempenho do profissional que as profere. Do chão de fábrica às mesas de conselho, ninguém escapa dos jargões, estrangeirismos, lugares-comuns e gírias.

Problemas na comunicação interpessoal

Quem nunca ouviu ou recebeu e-mails com termos como “agregar valor ao negócio”, “sinergia” ou “approach”?

“A comunicação ruim é uma praga nas empresas”, afirma Edison Rosa, consultor de Comunicação, de São Paulo. De acordo com ele, muitos profissionais acham que usar jargão o tempo todo transmite a ideia de domínio da área e impressiona os colegas.

“O problema é que, muitas vezes, a mensagem é simplesmente ininteligível ou pedante”, diz o consultor.

Uma pesquisa feita no LinkedIn, rede social com mais de 135 milhões de usuários — 6 milhões só no brasil —, mostra que palavras como “inovador” e “criativo” aparecem em mais de 3 mil perfis.

Para Danielle Restivo, gerente de comunicação corporativa do LinkedIn para Canadá e Brasil, as pessoas usam essas palavras para descrever sua experiência profissional como forma de se enquadrar em um grupo.

“São expressões que se tornaram populares e parecem mais importantes do que são”, diz Danielle. Faltam vocabulário e capacidade de argumentar e de dar clareza aos discursos.

Linguagem - lugares comuns

“Os profissionais se escondem atrás dessas palavras porque têm um vocabulário pobre”, diz Osório Antônio Candido da Silva, professor da BSP e da Fundação Instituto de Administração (FIA), em São Paulo, e especialista em técnicas de comunicação e expressão verbal.

De acordo com ele, as pessoas têm dificuldade de se expressar e pouca familiaridade com a língua portuguesa. “Muitas são fluentes em inglês mas não conseguem explicar algo simples em seu próprio idioma.”

A gerente financeira Edjane Andrade, de 38 anos, da empresa de tecnologia Amadeus, de São Paulo, voltada para o setor de turismo, sabe que não pode descuidar da língua portuguesa.

Em março de 2011, ela fez um curso sobre reforma ortográfica que abordou também o uso excessivo de expressões em idioma estrangeiro, jargões e vícios.

“Para quem deseja ter uma carreira sólida e, principalmente, atingir um cargo de liderança, falar e escrever bem em português é essencial”, conclui.

Os ruídos de comunicação prejudicam a carreira. Uma pesquisa feita pelo Project Management Institute Brasil (PMI) em 2010 com 300 companhias nacionais e multinacionais mostrou que em 76% delas os projetos não dão certo porque os profissionais não sabem escrever nem falar bem.

Blah-Blah-Blah

“Hoje em dia, uma enorme parcela de pessoas chega ao mercado de trabalho sem competência para redigir um texto formal de qualidade”, diz a professora Maria Clara Jorgewich Cohen, autora do livro Comunicação Escrita – A Busca do Texto Objetivo, da Editora E-Papers.

O mais grave, ressalta, é que a maioria dos profissionais não admite que precisa melhorar. “Muitos ficam constrangidos de frequentar cursos porque ocupam altos cargos”, diz Maria Clara.

A percepção de que a deficiência do idioma é crescente parte do próComunicação sem ruídos. A gerente financeira Edjane Andrade, de 38 anos, da empresa de tecnologia Amadeus, de São Paulo, voltada para o setor de turismo, sabe que não pode descuidar da língua portuguesa.

Em março de 2011, ela fez um curso sobre reforma ortográfica que abordou também o uso excessivo de expressões em idioma estrangeiro, jargões e vícios.

“Para quem deseja ter uma carreira sólida e, principalmente, atingir um cargo de liderança, falar e escrever bem em português é essencial”, diz Edjane.

Hoje, cursos de idiomas oferecem aulas de português para brasileiros. Várias têm ampliado o número de treinamentos. Uma famosa escola de inglês, por exemplo, oferece o curso Português sem Tropeços há quatro anos e atualmente atende mais de 5 mil alunos em todo o país.

Dos matriculados, 70% vêm de empresas, principalmente das áreas financeira e comercial, e a maioria é composta por gestores.

“Percebemos que existia no mercado um desnível entre a competência técnica e a habilidade de comunicação”, diz o professor Elvio Peralta, de São Paulo.

Falta de compreensão

De acordo com Elvio, embora a cobrança pelo segundo idioma seja alta no mercado, o profissional não pode descuidar da própria língua.

“Quem não tem o domínio do português com certeza será malvisto”, afirma. “Há deficiências graves em concordância verbal e nominal e referentes à nova ortografia.”

Assim, os cursos podem abordar a produção oral e escrita, regras de gramática e a nova ortografia — depende do que é necessário para melhorar a comunicação com o público.

Antigos cursos de reciclagem são chamados de oficinas de comunicação. Isso porque, quando a solicitação vem da direção ou do RH, muitos alunos não querem dispor do tempo que têm para estudar português.

O objetivo é sensibilizá-los da importância que a comunicação tem para os negócios. O uso correto do idioma pode ser a diferença entre um desempenho eficaz e o fiasco nas relações com colegas e clientes.

Portanto, deixe de lado o preconceito e abuse do vasto vocabulário da língua portuguesa. De nada adianta falar mais de um idioma e ser especialista num assunto se você não conseguir transmitir ideias em seu próprio idioma. Solte o verbo, mas de maneira correta.

Comunicação nas empresas

JARGÕES FORA DO VOCABULÁRIO

Seja mais claro e siga regrinhas simples para aprimorar a sua comunicação oral e escrita.

– Evite o uso sem necessidade de palavras já desgastadas, como “paradigma”, “valor” e “sinergia”.

– Evite os verbos ingleses aportuguesados, como printar, startar, linkar, atachar.

– Elimine gerundismos como “vou estar apresentando”, “vamos estar demonstrando”.

– Não complique. Desenvolva um vocabulário simples e objetivo para apresentar suas ideias.

– Pronuncie bem as palavras. Não corte o “s” e o “r” finais nem o “i” intermediário.

– Fuja dos cacoetes no meio do raciocínio, como “tá ok?”, “é assim”, “né”, “bem”, “então”, “certo?”, “é o seguinte”.

* Em Você S/A

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