Orgia com vírgulas descamba para estupro da notícia

“A notícia, quando adulterada deliberadamente pelo jornalista, cumprindo determinações do patrão, representa um atentado à democracia. É uma prática tão abjeta quanto o médico que aplica uma injeção letal num paciente, a mando de um comparsa criminoso; ou de um policial que ‘apaga’ um inocente sob custódia do programa de proteção à testemunha, por ordem de algum chefe mafioso.”

Por Paulo Maurício Machado *

Muito se lê na blogosfera que os jornais e outros meios de comunicação da chamada velha mídia, se transformaram em braço ideológico de grupos e agremiações políticas. Não foi à toa que, para referir-se a esses veículos, popularizou-se com tanta velocidade o termo PiG – Partido da imprensa Golpista.

Pessoalmente, tô nem aí se caiu de vez a máscara dessa gente que apregoa a isenção e imparcialidade jornalísticas. Nem precisa ser do ramo para saber que os grupos midiáticos sempre estiveram do lado de determinadas elites financeiras e na base de qualquer crise que brecasse o avanço de políticas de caráter social.

Voltando um pouquinho ao passado, lembro do lema “o que é bom para o doutor Roberto Marinho não é bom para o Brasil” que colegas repetiam nas redações no final da década de setenta. Tratava-se de uma adaptação da tão famosa quanto infeliz frase proferida em junho de 1964 pelo general Juracy Magalhães – “o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil” -, em resposta a um repórter que lhe perguntou com que espírito assumia o posto de embaixador em Washington.

Naquele tempo a isso se dava o nome de “subserviência”. Com todas as letras.

Bem, mas este exemplo vem imediatamente à cabeça ao me deparar com as manchetes da Folha de São Paulo, que o Luis Nassif reproduziu em seu blog por sugestão de um comentarista.

Na edição online, em 1º de abril, tecnicamente deve-se admitir que a chamada reflete o que foi dito por dois políticos em seus discursos de desincompatibilização dos cargos executivos que ocupavam para concorrer à presidência da República.

Pode-se apontar – e com razão – o viés favorável ao candidato Serra, subjacente na primeira linha. Uma expressão de apelo bastante popular, “roubalheira” (dirigindo-se ao governo Lula) ganha impacto muito maior comparado ao quase insondável “viúvos da estagnação” a que se referiu Dilma Roussef (em relação aos neoliberais tucanos).

Mas até aí tudo bem, fica apenas implícita a posição editorial da FSP, o que não quer dizer lá muita coisa para um grupo empresarial que já cedeu veículos para o que definiu como “ditabranda”, que publicou fichas falsas da ex-ministra-chefe da Casa Civil e que conta com o ex-governador paulista em seu conselho editorial e ainda como colunista regular.

Todavia, o mais o grave dessa estória ainda estava por acontecer na edição impressa do mesmo jornal.

Tão grotesca e repugnante foi a manipulação do título da matéria que pode-se afirmar que a houve um estupro da notícia. Todo resquício de veracidade foi evaporado com a supressão de uma vírgula e o uso do “viúvas” no feminino. Seria exagero considerar que a verdade dos fatos tenha sido proposital e literalmente “assassinada”?

Mais uma vez, a notícia, quando adulterada deliberadamente pelo jornalista, cumprindo determinações do patrão, representa um atentado à democracia. É disso que se trata, ninguém tenha dúvidas.

A prática é tão abjeta quanto seria, por exemplo, a de um médico que aplicasse uma injeção letal num paciente, a mando de um comparsa criminoso; ou de um policial que ‘apagasse’ um inocente sob custódia do programa de proteção à testemunha, por ordem de algum chefe mafioso.

Indignação é pouco diante desse tipo de absurdo ou outro adjetivo que se queira utilizar. Se a podridão do esgoto exala agora debaixo dos nossos narizes dá para imaginar a que nível insuportável chegará quando a campanha eleitoral começar para valer.

Esta rápida reflexão é dirigida, obviamente, mais aos neófitos em cobertura política, aos jovens que ingressam em número cada vez maior na blogosfera independente. A experiência aconselha que se evite, sim, dar crédito aos veículos (praticamente todos) comprometidos com esse tipo de coisa que ainda têm coragem de chamar de “jornalismo”.

Pelo menos, naquela paradinha habitual em frente às bancas de jornais, que se leia nas entrelinhas onde pode estar escondida a verdade factual. Ou melhor, entre as vírgulas. Na época da censura era assim que fazíamos. Parece que o tempo retrocedeu, quem diria.

Porque, do jeito que a coisa anda, a isto que a FSP fez pode se dar qualquer nome, menos Jornalismo. É sacanagem das grossas mesmo!

* Paulo Maurício Machado é jornalista, empresário e blogueiro.

2 comentários em “Orgia com vírgulas descamba para estupro da notícia

  • 4 de abril de 2010 em 13:26
    Permalink

    Tenho saudades da “antiga” FSP, um pouco menos descarada do que vemos agora…
    Depois criticam o povo brasileiro por não ser adepto a leituras… Além de muito caros (revistas, livros e jornais), são tendenciosos, manipuladores e mentirosos… então ler o que e pra que????

    Resposta
  • 3 de abril de 2010 em 19:49
    Permalink

    A Folha já perdeu a credibilidade há muito tempo. O desespero é tão grande, que se viu na única situação de ser vendida à “oposição”, gente de excelente caráter e práticas ilibadas…

    Resposta

Deixe um comentário simpático neste artigo: