O peso da Internet na campanha eleitoral para presidente

Peso da Internet nas eleições 2010

BRANCO, SONINHA E CAIO TÚLIO AVALIAM CAMPANHA NA INTERNET

Nunca a internet teve um peso tão determinante numa disputa eleitoral como em 2010, reflexo da mudança do ano passado que deu liberdade para todos utilizarem os espaços da web como ferramenta de campanha.

A opinião foi compartilhada pelos coordenadores de campanha na internet dos presidenciáveis Dilma Rousseff, José Serra e Marina Silva, respectivamente Marcelo Branco, Soninha Francine e Caio Túlio Costa.

Eles debateram o tema nesta quarta-feira (10) durante o segundo painel do 4º Seminário Internacional de Mídia Online (MediaOn), que acontece em São Paulo.

Anonimato na rede

O coordenador da campanha da presidente eleita Dilma Roussef, Marcelo Branco, fez uma defesa veemente da possibilidade de espalhar mensagens sem identificação do usuário. Segundo ele, os blogueiros alternativos, muitos deles “fakes”, deram um contraponto na cobertura dos veículos de comunicação oficiais. “O anonimato é um direito e ele é positivo, inclusive serviu para permitir a oposição virtual na China”, disse.

A ex-vereadora Soninha Francine rebateu o colega dizendo “ainda bem que não estamos na China, né?”. De acordo com ela, o anonimato pode ser usado como forma de assumir posições sem comprometimento ou responsabilidade e isso pode ser usado mal. “Nas votações na Câmara, a votação secreta é usada para votar sem pressão e sem prestar contas para a sociedade”, afirmou.

Caio Túlio Costa, que chefiou a bem-sucedida parte virtual da campanha da verde Marina Silva, declarou que a internet simplesmente reproduz o que acontece no meio real. E assim como no mundo físico, o controle do anonimato é impossível. “Não podemos entrar em uma discussão que não está resolvida sequer fora da internet”, disse.

Internautas assumem papel da militância

Para Soninha Francine, a corrida presidencial na internet criou a figura do “blogueiro de confiança”. Segundo ela, a entidade do militante engajado que mantém um blog político faz as vezes da pessoa próxima que influencia no voto como um parente, o sacerdote ou o amigo que orienta em quem votar.

De acordo com a ex-vereadora, a militância política no País é cada vez mais remunerada e “não existe mais o militante que segura a bandeira na rua de graça”. “A internet é o espaço onde ainda existe a militância espontânea”, disse. O blogueiro reproduziria o contato pessoal no corpo-a-corpo e poderia ter um papel maior na escolha de candidatos, se o recurso for explorado melhor.

Bloco formador de opinião

Marcelo Branco afirmou que na campanha de Dilma optou por não centrar na imagem da candidata no Twitter e na TV porque não é possível construir uma reputação em três meses. Segundo ele, a internet não é um meio de comunicação de massa, mas um espaço de expressão individual. Ele disse que a internet foi o terceiro bloco formador de opinião desta campanha, se juntando aos partidos políticos e seus candidatos, além da mídia tradicional.

“Esse terceiro bloco se expressou de forma multimídia por meio das redes sociais. Os eleitores deram um caminho para a campanha, bem diferente da visão da coordenação dessas mesmas campanhas”.

Segundo Branco, o resultado que a internet proporciona é imprevisível. “Essa história de ir para casa em um fim de semana e fazer um viral não existe. As coisas chegam na rede e tomam proporções muito além daquilo que se possa imaginar”, disse.

Segundo ele, a campanha de Dilma se saiu melhor na blogosfera, entre os inúmeros blogs que apoiaram a candidata, e teve um resultado inferior no Facebook. “Tivemos um volume de comentários nas redes sociais sempre superior à soma das campanhas de Marina e Serra. Os temas religiosos não apareceram de forma relevante nelas”, afirmou.

De acordo com Branco, a campanha foi bastante despolitizada. “Eu, que nunca tinha trabalhado em uma campanha antes, achei que elas fossem mais politizadas. Mas não foi o que se viu”, disse.

Segundo turno

O coordenador Web da campanha presidencial de Marina Silva (PV), Caio Túlio Costa, afirmou, por sua vez, que sem a presença da internet não haveria segundo turno na corrida presidencial. Segundo ele, a rede foi imprescindível para que a sua candidata alcançasse a marca de 20 milhões de votos.

Durante a sua apresentação, ele fez uma comparação entre a campanha de Barack Obama à presidência dos Estados Unidos e de Marina Silva na disputa da presidência da República brasileira.

“É uma comparação que não dá para comparar, a começar pelo valor que cada um teve ao seu dispor. O Obama tinha uma máquina partidária, enquanto Marina nem partido tinha direito. Ele arrecadou cerca de US$ 197 milhões somente na Internet, enquanto nós, R$ 179 mil. “Mas podemos dizer que a campanha brasileira utilizou melhor as redes sociais, que na campanha americana, que teve uma utilização com muito menos resultados”.

De acordo com Túlio Costa, a votação de Marina foi muito expressiva, se for levado em conta que ela era praticamente desconhecida no início da campanha. “Nem o (Leonel) Brizola chegou a 20 milhões de votos. Essa é uma marca que nos dá muito orgulho”, disse.

“Baixarias” na campaha

A partir da pergunta de um internauta, o tema “baixaria” na campanha eleitoral veio à tona no debate.

Na opinião de Soninha, muitos agiram de maneira indevida pessoalmente, ainda que a coordenação da campanha não se omitisse nem endossasse tais práticas. “Não endossamos e o quanto pudemos, não se permitiu que isso partisse dos canais oficiais.”

Marcelo Branco disse que a campanha de Serra pode ser dividida antes e depois da presença de Soninha na campanha. “Antes de a Soninha entrar na campanha do Serra, a situação era pior, com o disparo de correntes de e-mails de dentro da própria campanha. Depois isso melhorou um pouco, mas tivemos práticas condenáveis”. Branco, no entanto, frisou que “baixarias” acontecem dentro e fora da internet e não se pode culpar a tecnologia pelo comportamento humano.

Entre o que eles teriam mudado, Marcelo Branco disse que teria buscado integrar mais as três frentes da campanha (internet, TV e atividades de rua), enquanto Soninha afirmou que teria começado antes a integração entre o site oficial e os canais oficiais da rede. Na campanha de Marina, Túlio Costa disse que teria aproveitado melhor os vídeos.

Mediaon

O 4º Seminário Internacional de Jornalismo Online – MediaOn, encontro realizado anualmente pelo Terra e Itaú Cultural, é um dos principais fóruns de debates sobre jornalismo digital e novas mídias. O evento, que tem apoio das redes de televisão CNN e BBC, tem transmissão ao vivo. Os debates contam com a presença de representantes de veículos brasileiros, da América Latina, Europa e Estados Unidos.

O tema do evento deste ano será “Os novos caminhos do jornalismo: o que a audiência quer consumir e como?”. Além dos debates entre profissionais, um painel mostrará ao vivo como os consumidores vêm se apoderando das novas mídias.

Reproduzido do Portal Vermelho

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