O período da estupidez com os trotes nas faculdades

Veterano aplica trote da linguiça em caloura

Do blog A Cachaça da Happy Hour (publicado em 14/02/2011)

Todos os anos é a mesma coisa: notícias de violência e sadismo praticados contra calouros por parte de veteranos universitários. Até onde estou informada, parece que o problema é mais grave aqui em Minas, Brasília e São Paulo. O que comprova que, em diversos aspectos, nós ainda somos muito atrasados em relação ao restante do Brasil. Comparados ao Rio de Janeiro, então, não passamos de uns “trogloditas” pois o trote, por lá, foi abolido há muito tempo.

TROTE DA LINGUIÇA: É PARA ISSO QUE ESTOU ESTUDANDO?

Por Luciana Marques *

Todo ano são noticiados trotes que passam dos limites. Porém, ironicamente, no ano em que pretendo estudar para ser aceita em uma universidade, ouvi a história que para mim é a mais polêmica de todas.

Nesse ano, veteranos que participaram do trote do curso de Agronomia da UnB fizeram as meninas chuparem uma linguiça coberta por uma camisinha e leite condensado, simulando sexo oral. E é claro que isso foi parar na internet.

A Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República pediu explicações sobre o ocorrido, e a blogosfera e o Twitter ficaram cheios de postagens de reprovação.

O aluno Caio Batista (que é também o presidente do Centro Acadêmico do Curso de Agronomia) teve seu depoimento publicado na página da internet da UnB, afirmando que ninguém foi obrigado a participar do trote, e que este não foi realizado com o intuito de diminuir ninguém.

Ele ainda diz que pela repercussão negativa na mídia, os alunos concordaram em “se readaptar para uma melhor convivência social” no que diz respeito às brincadeiras do trote, mesmo não concordando com as reprovações recebidas.

Achei o depoimento do Caio bem argumentado, mas não concordo com o ponto de vista que ele expôs. É fácil julgar os veteranos como pessoas horríveis e machistas, mas o fato de o trote ser uma atividade opcional não tira sua conotação sexual.

Além disso, fala-se muito de inserção social quando o assunto são os trotes universitários, pois é uma chance para os calouros conhecerem melhor quem já estuda lá e assim interagir. Mas eu, vestibulanda, me pergunto: a inserção social aqui valia mesmo a humilhação?

Afinal, é para isso que estou estudando? Para entrar em um meio em que um grupo de pessoas faz uma garota chupar uma linguiça, coloca um vídeo disso na internet, e acha isso normal?

* Depoimento no Blog do Folhateen

Sexismo e agressão em trote da linguiça

MANUAL ANTITROTE DÁ DICAS PARA LIDAR COM ‘BRINCADEIRAS’

As matrículas dos aprovados na USP começam hoje (14/02/2011).

A data é de celebração. Mas traz, por outro lado, receios em relação ao trote violento.

Em 11 de janeiro, calouras foram obrigadas a lamber uma linguiça, na Universidade de Brasília. No dia 31, “bixos” do Centro Universitário Salesiano, em Lorena (SP), tiveram de beber álcool. Dois sofreram convulsões.

TROTE
Ritual feito no dia da matrícula dos calouros, os chamados “bixos”. Os veteranos colocam a criatividade a favor da humilhação e do constrangimento de novos alunos, às vezes usando violência física. Entre os clássicos está cortar o cabelo

DENÚNCIA
Os alunos podem denunciar o trote. Devem registrar boletim de ocorrência e passar por exame de corpo de delito, se necessário. A denúncia, que mais tarde vira estatística, ajuda as entidades responsáveis a saber onde e como intervir

REAÇÃO
Reagir com violência ao trote pode desencadear mais violência ainda -uma punição à “desobediência” do calouro. Não é recomendado

UNIVERSIDADE
As instituições de ensino têm a obrigação de investigar casos de trote violento, pois podem ser punidas pelo Ministério Público caso deixem de fazê-lo. Algumas universidades já possuem serviço de disque-trote para receber denúncias

PODER PÚBLICO
Além das delegacias, os casos podem ser levados à Promotoria de Justiça da região do trote

EM CASA
As famílias dos estudantes, inclusive as dos veteranos, devem ficar atentas ao trote durante o período de matrícula

CONSEQUÊNCIAS
Os veteranos que submeterem calouros a trote violento podem ser expulsos ou suspensos da universidade. Isso não impede que também respondam pelo trote na Justiça

CRIMES
O trote pode ser enquadrado em uma série de crimes puníveis pelo Código Penal, por exemplo:

a. EXTORSÃO
Artigo 158 – Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, e com o intuito de obter para si ou para outrem indevida vantagem econômica, a fazer, tolerar que se faça ou deixar fazer alguma coisa. PENA – reclusão, de quatro a dez anos, e multa

b. INJÚRIA
Artigo 140 – Injuriar alguém, ofendendo-lhe a dignidade ou o decoro. PENA – detenção, de um a seis meses, ou multa

c. CONSTRANGIMENTO ILEGAL
Artigo 146 – Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, ou depois de lhe haver reduzido, por qualquer outro meio, a capacidade de resistência, a não fazer o que a lei permite, ou a fazer o que ela não manda. PENA – detenção, de três meses a um ano, ou multa

d. HOMICÍDIO SIMPLES
Artigo 121 – Matar alguém. PENA – reclusão, de 6 a 20 anos

e. LESÃO CORPORAL
Artigo 129 – Ofender a integridade corporal ou a saúde de outrem. PENA – detenção, de três meses a um ano

TELEFONES DE DENÚNCIA DE TROTE VIOLENTO (em SP)

UNIFESP – 0/xx/11/5576-4244, ramal 207
USP – 0800-012-10-90
UNICAMP – 0/xx/19/3521-4757

Calouros como porcos no chiqueiro

Cartilha retirada daqui

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Blog da Nívia de Oliveira Castro

4 comentários em “O período da estupidez com os trotes nas faculdades

  • 15 de fevereiro de 2011 em 15:52
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    Passando pela PUC-SP (moro perto) ontem à noite, pude constatar quão humilhante era a condição dos calouros: sujos, maltratados, constrangidos a pedir dinheiro nos cruzamentos. A quadra entre a rua João Ramalho e a rua Bartira estava fechada e havia o som de uma bateria de escola de samba. Acredito que ali dentro a festa talvez fosse mais integradora, mas o que se via fora era de dar nojo. Além disso, os veteranos estavam regando sua demonstração de pequenos poderes a álcool, muito álcool. Era fácil perder a conta de quantos estavam com garrafas de bebida (vodka, cachaça e outras) na mão, até porque há um supermercado a menos de 50 metros da faculdade.
    Ainda não consigo acreditar que um ser humano possa sentir prazer em subjugar e humilhar seu semelhante e dizer que isso é apenas “diversão”. O constrangimento a que os calouros são (ou se permitem ser) submetidos é tão grotesco que não há outra coisa a pensar a não ser que, de fato, a selvageria tomou conta das pessoas. É um espetáculo horroroso e que só denigre a imagem do jovem universitário que, teoricamente, entrou na faculdade para se tornar mais do que um profissional com curso superior, mas um ser humano melhor. Frustrante.

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  • 15 de fevereiro de 2011 em 11:13
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    Isto sempre se repete porque tem quem goste da sacanagem, curte um lance masô. É como se o estuprado sentisse prazer pelo que lhe faz o estuprador, simples assim.
    Quem tem firmeza de caráter não se submete a humilhações, não pula no chiqueirinho e nem chupa linguiça em público. Enfrenta as bestas, entra na porrada se preciso for mas não cede um milímetro.

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  • 14 de fevereiro de 2011 em 21:04
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    Comecei a cursar a Faculdade de Comunicação Social na PUC-Rio em 1973. Lá se vão – isso tudo??? hehehe – quase quatro décadas. 40 anos!!! De lá para cá nunca vi ou ouvi falar de qualquer tipo de trote naquela instituição de ensino.

    Antes daquela data pode até ter havido mas, pegando carona no seu “trogloditas”, só se chegaram a ocorrer em tempos mais “jurássicos” que os meus. Mesmo assim duvido que naquela época descambassem para essa baixaria que se vê agora.

    As cabeças, outrora cabeludas e agora grisalhas ou carecas, eram muito mais avançadas…

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    • 15 de fevereiro de 2011 em 08:31
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      Anos de chumbo.
      Coisas importantes a serem feitas.
      Combater a ditadura, p.ex.
      PUC, uma das pontas de lança.
      Padres e estudantes solidários.
      Outro nível de consciência.

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