Na Copa da África os jogadores não são as estrelas do futebol

Futebol - negócios x arte

As grandes estrelas da Copa, até momento, são apenas três, a ordem fica a critério de cada um: a barulhenta corneta Vuvuzela, a escorregadia bola Jabulani e o técnico falastrão Maradona.

Mas, e os jogadores de futebol, antigamente os grandes heróis da grande competição mundial? Nenhum, pois hoje em dia eles não passam de simples acessórios ou meros codjuvantes.

Na verdade, o futebol dos negócios chega ao seu apogeu e sepulta de vez o futebol arte. Ganham uns poucos e perdem todos os torcedores. Sai que é sua Galvão!

A ECONOMIA DO FUTEBOL CHATO

Por Vinícius Torres Freire *

“Não há mais time bobo. As seleções jogam de modo cada vez mais parecido. O futebol da Copa é cada vez mais chato”.  Cada um desses clichês tem muita verdade; todos refletem uma tendência inevitável e fenômenos conhecidos:

1) O futebol é um negócio europeu e um produto montado finalmente na Europa, com recursos naturais importados do resto do mundo;

2) Os “softwares” (técnicas e táticas) de treinamento são tão acessíveis como planilhas de cálculo;

3) Como qualquer negócio, o futebol é orientado pela maximização de resultado, do campo de jogo à contabilidade, e pelos interesses do corpo burocrático que o dirige;

4) Em termos esportivos, a Copa é prejudicada pelos interesses do negócio europeu do futebol.

A Copa é jogada no final da temporada europeia. Nos clubes, os atletas atuam no limite da capacidade humana, o máximo de tempo possível e exigido por clubes, patrocinadores e TVs. Ao fim da temporada, estão esgotados ou machucados.

O interesse dos clubes limita cada vez mais o treinamento das seleções a raras semanas ou a um dia antes de jogos de torneios preparatórios. As seleções, pois, mal existem como equipes entrosadas.

Os principais jogadores do mundo atuam em times europeus. As transferências de atletas são tão antigas como a primeira Copa. Mas começaram a se tornar rotina nos anos 1980. Passaram ao estágio de livre comércio em 1995. O negócio agora em parte regride a algo parecido ao estabelecimento de feitorias coloniais.

Em vez de pagar caro por jogadores prontos e famosos, clubes europeus adquirem atletas juvenis e infantis. Ou criam centros de recrutamento e treino de crianças em países das Américas e da África.

A seleção brasileira de 1982 foi a primeira a contar com jogadores “estrangeiros”, que jogavam no exterior: 3 de 22. A de 1990 inaugurou a maioria de “estrangeiros”: 12 de 22, como a de 1994. Nas de 2006, 20 de 23 eram estrangeiros. Como o time desta Copa de 2010.

Desde 2002, o Brasil “vende” em média cerca de 800 jogadores por ano. Quase 60% da exportação destina-se à Europa. Na Inglaterra, 59% dos jogadores são estrangeiros. Em Portugal, 54%. Na Alemanha, 52%. Itália, 40%. Espanha, 37% (dados de 2008, do Professional Football Players Observatory).

A internacionalização dos times europeus foi impulsionada por uma decisão da Corte de Justiça Europeia, de 1995, liberando os times de cotas para jogadores estrangeiros e dando cabo de contratos que contrariavam a lei europeia de livre fluxo de trabalhadores. Pelo mundo, seguiram-se medidas que abririam o mercado de atletas e os libertariam da propriedade dos clubes.

A mundialização deveu-se ainda ao crescimento do negócio europeu do futebol, favorecido em especial pela alta da renda publicitária. Oligopólios transnacionais pagam cada vez mais para aparecer em transmissões planetárias.

Cada vez mais cedo, atletas submetem-se a rotinas de treinamento e práticas de otimização de resultados muito similares. Fazem-no em campos europeus, segundo técnicas e tradições esportivas do continente, ou lá adaptadas. Antes da “mundialização”, os atletas diferenciavam sua maneira de jogar graças à heterogeneidade cultural no modo de encarar o jogo.

* Vinícius Torres Freire, jornalista, em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo.

Via Instituto Humanitas Unisinos.

3 comentários em “Na Copa da África os jogadores não são as estrelas do futebol

  • 22 de junho de 2010 em 13:20
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    É verdade, a grana está por trás disso tudo. Aqui no Brasil não seria diferente, não é? Só que pega mais nos interesses da Globo. Veja o que o Luiz Carlos Azenha escreveu no Vi o Mundo:

    DUNGA CUSTA DINHEIRO À GLOBO. SIMPLES ASSIM.

    (…) Onde é que Dunga prejudica a Globo? Nos dias e horários em que não há jogo.

    Para a emissora, a Copa do Mundo era no passado um evento importante para alavancar a audiência de toda a programação. Os jogadores da seleção brasileira costumavam desempenhar o papel de um cast alternativo. O acesso exclusivo aos jogadores e integrantes da comissão técnica garantia aos telejornais audiências bem acima da média durante a Copa do Mundo.

    A exclusividade no acesso à seleção teria um papel ainda mais crucial este ano. Hoje as pessoas se informam em tempo real através de emissoras de rádio ou da internet e não precisam mais ficar sujeitas à ditadura da programação para obter notícias somente depois das 8 da noite, no Jornal Nacional. A não ser que uma emissora tivesse o monopólio das notícias importantes sobre a seleção, o que deixou de acontecer. (…)

    A diferença entre Dunga e a Globo encontra-se no calendário distinto pelo qual ambos se regem: a emissora precisa ganhar tudo agora, comercialmente tem pouco a faturar depois que o Brasil chegar à final; Dunga só irá ao banco descontar o cheque milionário se e quando garantir o título. A Globo precisa de um cast. Dunga precisa de um time.

    Minha sugestão à emissora do Jardim Botânico é que crie uma seleção cenográfica lá no Projac. Garanto que pouca gente vai notar a diferença.

    http://www.viomundo.com.br/opiniao-do-blog/dunga-custa-dinheiro-a-globo-simples-assim.html

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  • 21 de junho de 2010 em 21:13
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    A Globo é transnacional (ou antipatriótica seria mais adequado?) até na Copa do Mundo. Sempre torcendo contra o país. Na política os massacres são impressionantes. No esporte, parte com tudo para tentar destruir o Dunga.

    A frase dele na coletiva diz tudo:

    “Eu posso não gostar do que você está falando, assim como você pode não aprovar o que eu estou fazendo. A diferença é que eu só tenho 15 segundos para me defender, você pode ficar 24 horas me atacando”.

    Boa “dividida”, Dunga. CALA A BOCA GLOBO!

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    • 22 de junho de 2010 em 10:44
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      Dançaram mais uma vez, Fabian.kkkk… A Globo fez de tudo mas não conseguiu “ferrar” o nosso técnico pois já saiu a decisão oficial da entidade:
      “Fifa não vai punir Dunga pelos xingamentos após o jogo contra a Costa do Marfim pela Copa”.
      Lembrando: os xingamentos foram contra os “agressores” adversários, na beira do campo, e o repórter Alex Escobar, na coletiva de imprensa.
      CALEM A BOCA GALVÃO E TADEU SCHMIDT !!!

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