Mayara Petruso dá visibilidade à blogosfera do Nordeste

Chapéu de cangaceiro

Exagera quem acha que a tal Mayara Petruso não presta para nada. Neste momento, pelo menos, serviu sim: para desmascarar a hipocrisia do preconceito que grassa na nossa sociedade. Mas o mais importante, para a gente aqui do Sul-Sudeste, é descobrir talentos que se manifestam na Web a partir do Nordeste. É o caso desse jornalista e blogueiro pernambucano, dono de um estilo que é uma delícia. Saboreie comigo:

LUVA DE PELICA ou “AS INCRÍVEIS AVENTURAS NORDESTINAS DE MAYARA PETRUSO”

Por Ivan Moraes Filho *

Gestores públicos, ongueiros e cineastas de todo o Nordeste estão vacilando.

Nesse momento pós-eleitoral, pós-esculhambau, pós-xenofobal, a hora agora é de caminhar para a frente.

Nos últimos dias, a estudante Mayara Petruso só não foi chamada de arroz doce. Tudo por causa de uma infeliz série de insultos e impropérios ditos contra gente que, como este bodegueiro, nasceu no Nordeste. Feito um cuscuz no leite, a jovem moçoila sugeriu que fôssemos todos afogados e afogadas e caiu na boca do povo.

Vai responder a processo na justiça, tendo virado o personagem-símbolo das manifestações preconceituosas de que fez parte, embora jamais estivesse sozinha. Torço para que a causa ande e acabe virando uma construtiva pena alternativa:

(… Matricular-se num curso de cultura nordestina, vender macaxeira com charque numa feira nordestina por alguns meses. Ouvir a obra completa de Lia de Itamaracá por 48 horas ininterruptas. Aprender fuxico no Ceará ou renascença no interior pernambucano. Criar bodes por um mês na zona rural do Rio Grande do Norte ou cortar cana na zona da mata Alagoana. Algo que pudesse servir pedagogicamente a esta instantânea celebridade do lado obscuro internético moderno…)

Independente disso, porém, a hora é de conciliação e de construção. E por causa disso, interessante seria que a gente convidasse a pequena gafanhota para um turismozinho cultural pela parte de cima de nosso mapa. Acompanhada da imprensa (claro) e de seguranças (que tem doido pra tudo), ela iria conhecer o dia-a-dia da turma que batalha pelo cumê de cada dia do lado de cá.

Retirante às avessas, poderia acordar junto com Dona Ni, que mora no Engenho Maranguape e levanta às duas da matina para viajar até a Ceasa e comprar frutas e vendê-las no Mercado de São José. Poderia ir até Salgueiro carpinar a terra junto com Seu Vicente de Alta. Em Alagoas, visitaria o Movimento Pró-Desenvolvimento Comunitário e poderia participar de uma oficina de contação de histórias. Colocaria um protetor solar para ir pescar junto com Nadinho na Barra da Sucatinga, Ceará.

Para conhecer melhor os contrastes, visitaria o Porto de Suape e a Refinaria Abreu e Lima, com toda a suntuosidade que o momento merece. Depois pegaria a estrada para, maravilhada com o Velho Chico, compreender como é que água vira energia em Paulo Afonso, na Bahia. Aproveitando que tá chegando o verão, tentaria a sorte vendendo cerveja na praia da Ponta Negra, em Natal.

Ao fim do périplo, pularia o carnaval entre Olinda e Salvador, tendo que relatar o que gostou mais e menos em cada uma das festividades.

Desde já, me ofereço para acompanhar a caravana, registrando cada passo em texto e vídeo.

Tenho certeza que vai bombar no YouTube.

Daí para a Playboy ou para A Fazenda, acredite, é um pulinho.

* No Bodega Blog

13 comentários em “Mayara Petruso dá visibilidade à blogosfera do Nordeste

  • 3 de dezembro de 2010 em 17:31
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    “Daí para a Playboy ou para A Fazenda, acredite, é um pulinho.” Adorei o texto mas será que essa frase também não foi preconceituosa?? Acho que nesse país de tanta miscigenação, há espaço para todos. Desde que ganhe a vida com hombridade. Menos para qualquer tipo de preconceito ou racismo. Ou se preferir podemos adotar a tese do Gabriel o Pensador. “…O pior que cego é o que não quer ver, e o racismo esta dentro de você…”, seja por uma situação ou outra. Abraços.

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  • 8 de novembro de 2010 em 11:55
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    Genial! Já tô até vendo a capa da playboy, usando chapéu de cangaceiro e um “tucano” cobrindo as partes íntimas.
    Adorei a proposta de correção da MM (Moçoila Mimada) q ta mais pra MM msmo, derrete com o calor do Nordeste…

    http://gregaeudaimonia.wordpress.com/

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  • 6 de novembro de 2010 em 17:47
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    O Ivan Moraes escreve MUITOOOOO. Ganhou uma fã sulista pra sempre. Bela descoberta. Tenho que — como pode, Deus do céu? — agradecer à mayara “neonazi” petruso. Concordo. Pelo menos ela serviu pra isso.

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  • 6 de novembro de 2010 em 10:32
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    Tem razão, o cara é fera. Texto fulminante, um diretaço na ponta do queixo e… nocaute! (não da menina “prejudicada”, mas dos direitosos metidos a brabos).

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  • 6 de novembro de 2010 em 00:53
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    Hahahaha… Vou ser clara: Concordo em gênero, número e grau. Tem agência vendendo os pacotes ‘pras viage’? Também quero acompanhar a caravana!
    :)

    Sou nordestina e com MUITA vontade de falar arrastado!!

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    • 6 de novembro de 2010 em 12:01
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      Salve, salve Fortaleza! Linda, linda Priscila!

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  • 5 de novembro de 2010 em 23:01
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    Cacerolas !!!

    A delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância instaurou inquérito para apurar o crime cometido pela garota e a responsabilidade por um manifesto virtual intitulado “São Paulo para os paulistas”. Dentre outras coisas, reivindicam “o fim da repressão ao paulista sobre o tema da migração em sua própria terra”.

    Agora é que danou !!!

    O manifesto já foi assinado por quase 1.500 pessoas, que também poderão responder, como a estudante de direito, pelo crime de incitação ao racismo.

    Phodews !!!

    A delegada Margarette Barreto orientou os usuários das redes sociais a contribuir com a polícia imprimindo imagens de frases de outros usuários que incitem o preconceito ou o crime e encaminhando-as à polícia.

    Vai voar penas de tucanos pra tudo quanto é lado !!!

    http://www1.folha.uol.com.br/poder/826350-policia-de-sp-abre-inquerito-para-investigar-suposto-crime-de-racismo-no-twitter.shtml

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  • 5 de novembro de 2010 em 22:55
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    Bacana o post. So achei o autor muito sadico com a petrucinha. kkk

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  • 5 de novembro de 2010 em 21:52
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    A pétrida Petruso já pediu desculpas. Mas a pedra que ela atira é apenas mais uma que ajuda a erguer a montanha da infâmia. Pedir desculpas não resolve fundamentalmente A QUESTÃO que existe muito antes do Twitter nascer…

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  • 5 de novembro de 2010 em 22:18
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    O governo federal deixa claro que está de olho no que anda acontecendo no país. O recado do Presidente Lula no final do pronunciamento desta noite (sexta-feira) foi direto ao ponto, cirúrgico, mostrando a gana de furar o tumor social que se manifestou entre setores reacionários:

    (…) “Minhas amigas e meus amigos,

    Quero dar os parabéns à companheira Dilma Roussef. Para mim, primeiro trabalhador eleito Presidente da República, será motivo de grande satisfação transmitir a faixa presidencial, no próximo dia 1º de janeiro, à primeira mulher eleita Presidente da República. Tenho perfeita consciência do imenso simbolismo desse ato.

    Ele proclamará ao mundo inteiro – e a nós mesmos – que somos um país com instituições consolidadas, capazes de absorver mudanças e progressos. E que somos também um país que aprendeu a duras penas que não há preconceito, por mais forte que seja, que não possa ser vencido e superado pela tenacidade do povo.

    Simbolicamente, estaremos proclamando ainda que ninguém é melhor do que ninguém. Não importam as diferenças de origem social, de sexo, de sotaque ou de fortuna. Somos todos brasileiros. E todos devem ter oportunidades iguais, o direito a sonhar com dias melhores e o apoio para melhorar sua vida e a de sua família.”

    Brilhante, discurso de ESTADISTA.

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  • 5 de novembro de 2010 em 20:15
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    Amei o texto do Ivan. Ele mostrou que, ao contrário dos trogloditas fascitoides aqui de baixo, é um cavalheiro com o indispensável senso de humor, fino e sofisticado. Luva de pelica literal, uma verdadeira aula da boa educação nordestina. Parabéns pela escolha do post, amiga blogonauta (rs). Já estou repassando, feliz da vida. :)

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  • 5 de novembro de 2010 em 19:47
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    Isso sim, seria o ideal, ao menos para ela entender que nós nordestinos não somos o que ela pensa; ao contrário, os nordestinos é que foram e ainda são o pilar de toda a estrutura de São Paulo. E será que ela esquece que esses probres coitados que saem daqui para tentar uma vida melhor por lá, somente conseguem os mais miseráveis e mal remunerados dos trabalhos? Digna de pena, pobre coitada dessa jacú baleada!!!

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