Jornalistas demitidos de O Globo agora vão ter de cair na real

QUEM SEMEIA A CRISE COLHE O DESEMPREGO

Bozó - Chico Anysio

Um dos maiores orgulhos que tenho na minha longa carreira de profissional da Comunicação Social foi, por uma questão de princípios, nunca ter trabalhado diretamente para as organizações Globo.

Isso, embora não tivessem faltado propostas de gente graúda, do meu círculo de amizades ou relacionamentos, para ocupar determinados cargos com salários atraentes, que jamais me seduziram.

Não que tivesse deixado de aparecer nas tevês da rede, falado nas rádios ou ter publicado uma infinidade de matérias nos impressos da casa, cumprindo obrigações contratuais com outros veículos.

Mesmo toda essa exposição não me subiu à cabeça, pelo contrário, para mim era o mesmo que nada.

Daí que não me sensibiliza nem um pouco a demissão em massa dos bozós, talvez a maior da história do jornalismo brasileiro, ocorrida recentemente nas redações dos jornais da família Marinho.

E é por isto que também reproduzo, por conhecer o meio e concordar inteiramente com seu conteúdo, o texto primoroso que esta semana alcançou grande repercussão na blogosfera e redes sociais.

A DEMISSÃO DE JORNALISTAS E O CHOQUE DE REALIDADE

Após o passaralho de centenas de jornalistas na redação do grupo Globo, o repórter Marcelo Migliaccio faz uma análise dura, porém realista, do quanto a perda do emprego provoca em significativa parcela do universo profissional que, não raro, confunde o cargo, o posto alcançado, a ascensão profissional, com a própria personalidade. O choque de realidade que espera alguns daqueles que perderam seus empregos, e ingenuamente se deixaram confundir, pode parecer duro, mas se transformará necessariamente em um grande aprendizado. Leia o artigo:

Por Marcelo Migliaccio *

A demissão é um choque de realidade. Você passa centenas, milhares de manhãs, tardes, noites e até madrugadas enfurnado numa redação tensa e claustrofóbica. Perde os melhores momentos da infância de seus filhos equilibrando-se sobre um tapete que seus colegas puxam dissimuladamente, dando-lhe tapinhas nas costas toda segunda-feira e perguntando como foi o fim de semana.

Não importava pra você se o jornal em que você trabalhava apoiou dois golpes de estado e só desistiu na última hora de liderar o terceiro porque ia pegar muito mal.

Sentindo-se parte daquela família, você relativizava toda a sacanagem. O que queria mesmo era poder entrar num shopping sábado à tarde e posar de classe dominante. Sim, você era o rei do supermercado, carteira cheia, empáfia, carrinho abarrotado. Venci, você pensava, com cuidado para o seu orgulho besta não dar na vista.

Parecia até que era dono de alguma coisa além da sua força de trabalho. Sim, você confundiu tudo: uma coisa é o patrão, o dono da parada, a outra é você, o empregado, peça descartável como aquele faxineiro que coloca papel higiênico nos banheiros da redação.

A culpa não é sua, qualquer um ficaria inebriado. Sei, seus textos são ótimos, nesses anos você fez isso e aquilo, entrevistou grandes astros, ministros, até presidentes. Mas tudo isso e nada para o manda-chuva é a mesma coisa. Seu belo currículo não resistiu à tesoura de um tecnocrata e Prêmio Esso não tem valor em nenhuma padaria da cidade.

Você ontem caiu das nuvens (bem, é melhor do que cair do segundo andar). Pelos seus anos de dedicação e suor, recebeu um rotundo pontapé no traseiro. Agora, ninguém vai mais convidar o “Fulano do Jornal Tal” para um almoço grátis. Porque o convidado na verdade era o Jornal Tal e não o Fulano. Entradas para teatro e cinema? Esqueça. Daqui em diante, ou você paga o ingresso ou fica na calçada da infâmia.

Não, amigo, você não é classe dominante, mesmo que tenha defendido os ideais dos seus patrões com unhas e dentes e a maior convicção do mundo. Suas ideias neoliberais talvez não façam mais sentido a partir de hoje. Será preciso encarar os vizinhos sem aquele poderoso crachá no peito. É hora de engolir o orgulho. Tem um gosto meio amargo, mas você consegue.

* Marcelo Migliaccio é jornalista com passagens nos principais jornais do país

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