Golpe rebaixa Brasil de novo à condição de República das Bananas

MISSÃO CUMPRIDA: O MACACO NO SEU GALHO

República das bananeiras

Desde o início do milênio, o Brasil vinha ocupando cada vez mais espaço como destacado player no pesado jogo da geopolítica internacional, o que era intolerável para potências como os EUA.

Daí a armação do golpe recém aplicado ao País por agentes externos e internos, para recolocar cada macaco no seu galho e nos rebaixar, de novo, à tradicional condição de República das Bananas.

OS MOTIVOS DO GOLPE: TRAIÇÃO, TOTALITARISMO, DEBILIDIDADE DEMOCRÁTICA…

Por Assis Ribeiro *

Consumado o esbulho do governo Dilma, resta a expectativa de que surjam frentes de pensamento e de organização da sociedade que deem alento para que surjam estruturas de poder, substituindo as profundamente desmoralizadas neste advento que a história terá muito que aprofundar e relatar.

Majoritariamente, análises superficiais e apressadas da velha mídia atribuem à deficiência política do governo a causa principal que motivou o golpe.

Sobre este aspecto devemos lembrar algumas mudanças do staff político de Dilma tentando adequar às novas necessidades, terminando por ter uma linha de frente de primeira grandeza dentro da pobreza da representatividade que o mundo líquido de Bauman nos explica, seja em qualquer área de conhecimento que for.

E, assim, tivemos Jaques Wagner e Ricardo Berzoini substituindo Miguel Rossetto e Pepe Vargas.

Mas os golpes não podem ser explicados por razões de curto prazo, assim nos demonstra a história. Derrubadas de governos são gestadas por períodos de tempo superiores ao próprio mandato.

Aplica-se a célebre receita de Carlos Lacerda, “o corvo”: Esse homem não pode ser candidato; se candidato não pode ser eleito; se eleito não deve tomar posse; se tomar posse não deve governar.

Golpista-mor

Golpes na América Latina têm pai estrangeiro e mãe pátria, segundo os próprios documentos oficiais americanos sobre os golpes das décadas de 1960/70.

Tendo pai estrangeiro e gestadora pátria e para se entender os motivos dos golpes lembremo-nos de dois trechos históricos:

1 – Carta Testamento de Vargas:

Mais uma vez as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e se desencadeiam sobre mim. Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam; e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes.

Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais. (…)

A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados (…)

Quis criar a liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobras, mal começa esta a funcionar a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero. Não querem que o povo seja independente. (…)

Incrível de tão atual, não é? Tem mais…

2 – Do Observatório de Imprensa, em artigo de Luiz Alberto Muniz Bandeira:

Ontem, foi o suicídio de Vargas. Hoje, a deposição de João Goulart. Amanhã será outra revolução made in USA contra todo e qualquer presidente reformista”– escreveu Edmar Morel [MOREL, Edmar. O Golpe começou em Washington. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira,1965, p. 18].

De fato, o golpe militar fora planejado, articulado e, a partir de julho de 1963, impulsionado por Washington, quando o Pentágono começou a elaborar vários planos de contingência, denominados Brother Sam, que consistiam no envio da força-tarefa norte-americana, incluindo o porta-aviões Forrestal, para o litoral do Brasil, a fim de dar apoio logístico aos insurgentes e desembarcar marines, se o golpe de Estado provocasse uma guerra civil. (…)

Ditadura Militar

Hoje, Obama repete James Carville, então estrategista da campanha presidencial de Bill Clinton, afirmando “It’s the Economy”; eles não estavam se referindo apenas a assuntos exclusivamente internos.

Para concluir a demonstração de que golpes são gestados durante longo tempo e não se reporta aos lideres empossados por vitória democrática nas urnas, e sim, e bem mais preciso, contra o que é cobrado, em determinado momento da história de um País, pelo inconsciente coletivo de um povo.

Em outras palavras as necessidades de uma nação como entidade imaterial formada pelo povo, que se materializa nas ações de pensadores e coletividades.

Não é fortuito, nem aleatório, que os golpes das décadas de 1960/70, tiveram as mesmas motivações:

1 – Externa. Bloquear a formação de novas relações comerciais dos países periféricos que pretendiam criar uma maior independência em relação ao grande irmão do norte, e impedir o incentivo na criação e manutenção de empresas genuinamente nacionais que pudessem competir com as mastodontes internacionais.

2 – Interna. A melhoria das condições de vida da população fornecedora de mão de obra através de uma melhor redistribuição de riquezas. Resumindo, democratizar a vida do País.

Por que o Brasil incomoda?

Por isso, os golpes no continente ocorrem em sequência, atingindo em determinado período de tempo quase todos os países onde as elites não conseguiram retomar o poder pelas vias democráticas – através das urnas.

Derrubam-se todos aqueles que não se submeteram às pressões externas para deixar de amparar as empresas nacionais, os que questionam a cartilha norte-americana e os insubmissos aos interesses dos coronéis.

Dá para entender os motivos pelos quais continuamos fornecedores de commodities, dependentes da gangorra econômica externa; com a estrutura intacta de coronelato, na economia, no legislativo e no judiciário; um continente formado por países entre os de população mais pobre, e detentores do recorde de maior desequilíbrio social e pior distribuição de renda.

Daí o título emprestado (coincidência?) de Honduras; “republiqueta de bananas”, por ser politicamente instável, submisso a um país rico e frequentemente com políticos corrompidos e sociedades opressoras.

A economia é em grande parte dependente da exportação de produtos in natura. Países de classes sociais estratificadas, incluindo uma grande e empobrecida massa de trabalhadores e uma plutocracia que compreende as elites de negócios, política, militares e do judiciário.

Esse rápido histórico serve para demonstrar que a queda de Dilma não se deve às condições de inapetência politica de um governo, tanto que está ocorrendo dentro de uma avalanche orquestrada.

Competição internacional

Metodologia e organização são as mesmas que já deixaram a sua marca em Honduras, no Paraguai e agora no Brasil, e que pelos mesmos métodos de desgaste e retaliação faria o governo indicado por Cristina Kirchner cair por golpe, se não tivesse perdido nas urnas.

Parece ser algo que se torna cíclico, e de acordo com os avanços da inclusão social e da necessidade corporativa estadunidense de maior espoliação das riquezas dos seus periféricos.

A nova formatação dos golpes tenta iludir a população com aspectos falseados de normalidade jurídica. Desta vez, o “meme” enganador é o mesmo, a corrupção, com as diferenças de, lá atrás, comunismo; hoje, petismo.

Mas, como não há mais guerra fria para justificar tanques nas ruas, recorrem àqueles que são reconhecidamente provedores e garantidores dos privilégios da elite, o Poder Judiciário.

Qualquer estudo irá posicionar indelevelmente a participação ativa do Judiciário no amparo dos interesses das elites em qualquer período da história.

Ao mesmo tempo, policiais e delegados lembram mais jagunços protetores e paus mandados de seletivo segmento, outrora capitães do mato e capatazes, do que forças de normalização democrática.

Poder legislativo, sempre a reboque de quem dá mais. Todos temerosos e submissos à mídia oligárquica, partidária e ficcionista e, paradoxalmente, sedentos por holofotes. Sociedades com o rótulo de “casa grande e senzala”.

Temer usurpador infiltrado

Mais ainda há algo semelhante, mas desigual – as forças repressoras e as de resistência.

Os grupos de resistência nas décadas de 1960/70 eram formados mais pelo aspecto ideológico e os de repressão pelas Forças Armadas, melhores preparadas.

Nestes golpes atuais os usurpadores não mais contarão com os militares e a resistência não se dará apenas pela questão ideológica. A noção pragmática de inclusão já domina as consciências de toda a população, o que fará com que as reações sejam mais duras de ambos os lados.

Se a noção da legalidade em 64 foi desmascarada após a derrubada de Jango, neste golpe atual a ideia da ilegalidade já é reverberada pela mídia internacional, pela ONU/OEA, por inúmeros pensadores e formadores de opinião e por lideranças internacionais. Há grande resistência em todas as camadas da sociedade.

Os governos militares não conseguiram manter a coesão mesmo se aliando a lideres fortes como ACM, Maluf, Sarney, Collor, personas que já não existem, pela própria fragmentação do mundo liquido profundamente esboçado por Bauman.

Mesmo fazendo “um outro golpe dentro do golpe” para auferir mais dureza e controle, expulsando ou forçando a saída de vários oposicionistas, prendendo e metralhando tantos outros, fechando o congresso, amordaçando e caçando juízes dissidentes, ainda assim a “pax “(paz imposta pela força aos derrotados) não aconteceu.

Quanto mais agora com todas as fragilidades apontadas acima, e com um presidente, Temer, político de fraca estrutura moral e debilidade política, criticado internacionalmente e com desconfianças de cada um dos aderentes à derrubada do governo Dilma pela pecha de traidor que lhe ficou grudada na testa como marca do seu caráter usurpador.

* Original no excelente A Procura

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