Fábula do Minotauro Global para a crise dos nossos tempos

A Besta do Capitalismo

O APETITE DA BESTA

Do blog ECOnsciência

Outrora, no famoso labirinto do palácio do Rei de Creta, viveu uma criatura tão brutal quanto trágica. A sua intensa solidão só era comparável ao medo que inspirava por toda a parte.

O Minotauro, pois este era o seu nome, tinha um apetite voraz o qual devia ser saciado a fim de garantir o domínio do Rei – o blindado reino minóico que assegurava a Paz, permitia o comércio através dos mares em navios cheios e difundia a prosperidade por todos os cantos do mundo conhecido.

Mas, ai de nós, o apetite da besta só podia ser satisfeito por carne humana.

De tempos em tempos, um navio carregado de jovens velejava da distante Atenas com destino a Creta – para entregar o seu tributo humano a ser devorado pelo Minotauro. Um horrendo ritual que era essencial para preservar a Paz daqueles tempos e continuar a sua Prosperidade.

Milênios depois, ergue-se um outro Minotauro, desta vez global. Sub-repticiamente. A partir das cinzas da primeira fase do pós guerra – aquela criada pelos homens do New Deal da América do Norte depois da guerra.

O seu covil, uma forma de Labirinto, foi localizado nas profundezas das tripas da economia americana.

Ele assumiu a forma de déficit comercial estadunidense, o qual consumia as exportações do mundo. Quanto mais o déficit crescia, maior o seu apetite por capital da Europa e da Ásia com que este Minotauro norte-americano saciava a sua fome.

O que o tornou verdadeiramente Global foi a sua função:

. ajudava a reciclar capital financeiro (lucros, poupanças, excedente monetário);

. mantinha as reluzentes fábricas alemãs ocupadas;

. devorava tudo o que era produzido no Japão e, depois, na China;

. e, para completar o círculo, os proprietários estrangeiros (muitas vezes norte-americanos) destas fábricas distantes enviavam seus lucros, seu cash para a Wall Street – uma forma de tributo moderno ao Minotauro Global.

O que fazem banqueiros quando um tsunami de capital atravessa diariamente o seu caminho? Quando entre 3 e 5 bilhões de dólares, líquidos, passam através dos seus dedos a cada manhã da semana?

Eles encontram meios para fazê-lo crescer! Para procriar em seu benefício.

Portanto, as décadas de 80, 90 e 2000 assistiram a uma explosão de dinheiro privado inventado (minting) por Wall Street nas costas do tsunami diário de capital que fluía para a América a fim de alimentar o Minotauro.

Tal como o seu antecessor mitológico, o nosso Minotauro Global manteve a economia mundial em movimento durante décadas. Até que as pirâmides de dinheiro privado construídas sobre o tributo alimentar do Minotauro entraram em colapso sob o seu próprio peso insuportável.

O Planeta Terra simplesmente não era suficientemente grande para aguentar tanto dinheiro tóxico privado; dinheiro de papel que se incendiou uma principiado o colapso.

Nesta conflagração, o Minotauro Global foi ferido gravemente.

Enquanto dispunha de uma saúde brutal, o Minotauro produzia tremenda riqueza e abominável desigualdade, novas perspectivas de prazer e novas formas de privação, ampla segurança para uns poucos e aflitiva insegurança para a maior parte, grandes invenções/gadgets e fracassos espectaculares na honestidade vulgar.

Seja o que for que pensemos do reinado do Minotauro Global, ele manteve o mundo em andamento e suas elites pensavam que o seu regime era estável, com êxito e mesmo moderado.

Com o desaparecimento do Minotauro, ao manter o show em andamento a partir do seu labirinto secreto, seus excessos flagrantes permaneciam ocultos, o que ajudava a grande e boa crença na sua própria retórica acerca de alguma Grande Moderação supostamente em vigor.

Mas, quando o Minotauro soçobrou, ferido mortalmente pelos excessos dos seus serviçais de Wall Street, deixou a economia global em estado caótico.

Na América do Norte e na Europa, na Índia e na China, a morte do Minotauro colocou o mundo numa crise permanente.

O Minotauro de Creta foi morto por um corajoso príncipe ateniense, Teseu. A sua morte introduziu uma nova era de tragédia, história, filosofia. O nosso próprio Minotauro Global morreu menos heroicamente. Foi uma vítima dos banqueiros de Wall Street.

O que trará a sua morte?

Deveríamos nós ousar esperar uma nova era na qual a riqueza não precise mais da pobreza para florescer? Na qual desenvolvimento signifique menos cinzas e diminuição do poder abstrato enquanto toda a gente fica mais forte?

Seja qual o resultado dos misteriosos caminhos da história, o Minotauro Global será recordado como uma besta notável cujos 30 anos de reinado criaram, e a seguir destruíram, a ilusão de que o capitalismo pode ser estável, de que a cobiça pode ser uma virtude e de que as finanças são produtivas.

* Por Yannis Varoufakis em Resistir

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