Elite tem, sim, complexo de viralata… o povo brasileiro, não

Complexo de Viralata

A EVOLUÇÃO DO POVO BRASILEIRO

O Chefe de Redação

Temos uma presidenta do balacobaco. Dilma, a Terrível, não tem um pingo de complexo de inferioridade. Ela nos leva adiante com a força e a disposição de uma motoniveladora. Quem a viu diante de Obama, não tem dúvida: temos uma zagueira. Agora, ela dá topada no joanete dos banqueiros, ali onde os juros se encontram com a perversidade. A próxima vítima serão os impostos, outra e definitiva praga nacional.

COMPLEXO DE EX-VIRALATA

por Marcelo Carneiro da Cunha *

Dizem que a maldição se confirmou no Maracanazo, naquele fatídico Brasil x Uruguai da Copa de 1950: aqui, ao sul do Equador, nada, nunca, ia dar certo. A suspeita vinha de longa data e atormentava, ao menos aos que podiam olhar e comparar a nossa trajetória com a de gente até bem próxima.

Na metade do século 20, aqui ao lado e ao sul, na linda e doida Argentina, eles pareciam ter se livrado da sina sul-americana e esbanjavam riqueza e civilidade, mais ou menos tudo que nos faltava.

Já o Brasil, esse não tinha jeito nem conserto.

Nosso passado escravocrata, nossa herança ibérica, nossas contradições e disposição excessiva para a cordialidade, elites na verba, não no resto; o grande irmão do norte nos policiando, nosso clima convidativo ao ócio, nossa condição mestiça, nossa dificuldade com números – a soma desses fatores era uma multiplicação de causas para um eterno subdesenvolvimento.

Essa condenação prévia a um futuro sem futuro foi um tanto sacudida pela sequência das Copas de 58, 62 e 70. Aquilo abalou a convicção nacional de uma falha estrutural e histórica a nos atrapalhar para todo o sempre.

O que se pensou na época foi algo como: bom, até pode ter dado certo, mas isso é no futebol, e apenas no futebol. Em campo somos reis, enquanto no resto, no máximo um Rex correndo rua abaixo, atrás do caminhão de lixo da história.

Vinte e tantos anos de ditadura não fizeram exatamente algum bem à nossa maltratada imagem aqui ou lá fora.

Uma saída que incluiu a frustração das Diretas Já, desembocou na morte de Tancredo e na bigoduda e trespassada presidência Sarney não ajudou em nada a nossa auto-estima a sair do poço onde a tinham enfiado aqueles presidentes militares e suas adoráveis esposas com aquele laquê todo.

Dali, e da primeira experiência com uma eleição presidencial, surgiu nada menos do que um Fernando Collor e seu inacreditável ministério, que incluía Magri, Zélia Cardoso e Bernardo Cabral, aquela sapiência. Roriz na Agricultura, alguém lembra? E uma inflação incurável no lombo, qual sarna.

Éramos vira-latas, seríamos para sempre, essa era a crença.

Pois, caro e estimado leitor, coisas começam a acontecer com uma frequência e intensidade que sugerem que a gente pode mesmo ter virado o jogo.

A transição começou quando finalmente elegemos um presidente que desse para apresentar à mãe, nosso estimado FHC. Finíssimo, chiquérrimo, um lorde.

Mas, se Itamar e ele domaram a inflação, lorde não resolve o problema do vira-latismo praticante de que éramos tomados. Lorde capricha no sotaque e se preocupa com o nó da gravata, muito mais do que com os destinos do mundo. Lorde terceiriza a faxina, estimado leitor.

E foi preciso um autêntico e nada lorde brasileiro, um desses esplêndidos exemplares resultantes da melhor genética que o sertão pode produzir, para a gente começar a se livrar de vez do complexo de vira-latas.

Incrível. Assumir nossa mestiçagem e nossa resistência às pragas foi o caminho, e cá estamos, cada vez mais nós mesmos e sacudindo a cauda pra quem não gosta.

De lá pra cá viramos BRIC, seja lá o que isso for, e nosso PIB resolveu acompanhar a nova e altaneira pose.

Criamos o G-20, pra não precisarmos armar o pagode no chiquérrimo G-8 e começamos a ver que não, não éramos tão errados assim, mesmo que fossemos e ainda sejamos uma tranqueira social e econômica.

A primeira surpresa é a de que, ora vejam, eles, os lordes, também são uma tranqueira, mesmo que mais perfumada. A outra surpresa foi a de descobrirmos que vínhamos fazendo coisas do jeito certo há mais tempo do que a gente percebia.

A gente descobriu muito petróleo quando o país já tinha outra base econômica, o que deve nos salvar de nos tornarmos essas pobres nações ricas em óleo e mais nada.

E ainda temos a matriz de eletricidade baseada em hidrelétricas, somos o único país que tem uma alternativa renovável na hora de encher o tanque, eliminamos os partidos ultrapassados e mantemos o país equilibrado entre um Petequistão e um Tucanistão que se sustentam mutuamente.

Temos tido presidentes muito acima de média geral, e uma presidenta do balacobaco.

Dilma, a Terrível, está mostrando que não tem um pingo de complexo de qualquer inferioridade em qualquer coisa, e nos leva adiante com a força e a disposição de uma motoniveladora.

Quem a viu diante de Obama, quem a vê soltando o verbo sobre quem ou o que a afaste de seus objetivos, não tem dúvida: Habemus Zagueiram.

Agora, ela está dando topada bem no joanete dos banqueiros, ali onde os juros se encontram com a perversidade, e já anuncia que a próxima vítima vão ser os impostos, essa outra e definitiva praga nacional.

O Brasil, visto do lado do copo meio-vazio, segue sendo assustador.

Nossa pobreza ainda é uma onipresença, nosso sistema de saúde é uma ofensa ao bom gosto, e as nossas estradas são uma forma nada divertida de delírio. As nossas cidades são um alvo natural para asteroides dotados de sensibilidade estética, e nossa música anda virada em um Michel Teló, mais para lá, ou mais para cá, mas não muito.

Mas, quando vejo o muito que está acontecendo ao nosso redor, desde que nos livramos do vira-lata em nossa alma e passamos a olhar para nós mesmos no mínimo com alguma dúvida, tudo mudou.

Olhando para a Dilma, exalando auto-confiança e segurança, eu penso que, quem sabe, o Manuel, que chega agora aos seis meses de idade, vai mesmo encontrar ainda na vida dele o país com que a gente nem sonhava, de medo da hora de acordar.

Quem sabe estamos nele, apenas não chegamos ao destino.

Quem sabe a Dilma sabe mesmo como nos levar até lá, ou ao menos sabe dar o empurrãozinho que nos garanta a chegada.

Quem sabe?

– – –

* Marcelo Carneiro da Cunha é Jornalista, escritor de livros e filmes. Acredita que bola boa é bola pra fora do estádio. Crente nos poderes da aspirina e do conhaque de alcatrão São João da Barra. Medo, só de barata.

2 comentários em “Elite tem, sim, complexo de viralata… o povo brasileiro, não

  • 17 de maio de 2012 em 18:55
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    Seu texto me fez mais feliz e mais corajosa, obrigada!

    P.S. Também sou “zagueira” e andava meio covarde.

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  • 5 de maio de 2012 em 11:46
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    Que maravilha. O Marcelo sempre nos surpreendendo e brindando com suas crônicas deliciosas. Ele é um dos meus preferidos. Parabéns.

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