Ego: o gênio que mata os melhores artistas da Humanidade

POR QUE MORREM AS PESSOAS CRIATIVAS?

Cantora de Blues & Rock

Na Antiga Grécia e em Roma, as pessoas não acreditavam que a criatividade fosse uma virtude única e exclusiva dos seres humanos.

Pelo conceito da época, achavam que um espírito divino de plantão entrava em contato com os seres terrenos, vindos de uma fonte distante e desconhecida, por razões também distantes e desconhecidas.

Os gregos chamavam esses espíritos criativos de “daemons”, ou divindades. Sócrates, reza a lenda, acreditava ter um daemon que lhe dizia de longe palavras de sabedoria.

Já os romanos acalentavam a mesma ideia, mas denominavam tais entes incorpóreos como “gênios” — o que era ótimo, por não admitir que uma pessoa particularmente inteligente fosse um gênio.

Eles achavam que gênio era um tipo de entidade mágica e divina, que se acreditava viver literalmente nas paredes do estúdio de um artista, saindo e auxiliando em seu trabalho, de forma invisível, e cuidando de tudo até o final.

Brilhante! Era exatamente esse tipo de distância a “construção psicológica” que protegia a pessoa do resultado do seu trabalho. E todo mundo tinha consciência de que era dessa maneira que as coisas funcionavam.

Assim, o artista na Antiguidade ficava imune a certos problemas, como, por exemplo, ser acometido por um excesso de narcisismo.

Se o seu trabalho fosse brilhante, você não podia levar todos os créditos porque as pessoas sabiam que, por trás, tinha um gênio invisível que te ajudava. E se seu trabalho fosse um fracasso, também não era só culpa sua.

Nesses casos, todo mundo compreendia que o seu gênio era “meio folgado”… E por bastante tempo foi desse jeito que se pensou sobre a criatividade no mundo ocidental.

Até que veio o Renascimento e mudou tudo.

Foi quando tivemos uma grande ideia: colocar o homem no centro do universo, acima de todos os deuses e mistérios, não havendo mais lugar para criaturas místicas que ditassem coisas de uma fonte divina.

Este foi o início do racionalismo humanista, quando as pessoas passaram a acreditar que a criatividade vinha inteiramente do “self” dos indivíduos.

E pela primeira vez na história, a gente começa a ouvir as pessoas se referirem a este ou aquele artista como “sendo” um gênio — ao contrário de “ter” um gênio.

Este foi o grande erro que permitiu a alguém, uma mera pessoa, acreditar que ela é o vaso, o molde, a essência e a fonte de todo o mistério criativo, divino, eterno e desconhecido.

Foi responsabilidade demais para a nossa frágil psique humana. É como pedir a alguém que engula o Sol.

Isto só distorce e deforma o ego, além de criar expectativas incontroláveis sobre o trabalho de cada um.

E é justamente essa pressão, essa cobrança da crítica, da indústria cultural e da sociedade, que vem matando os nossos melhores artistas durante os últimos 500 anos.

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Fragmento do emocionante relato da escritora Elizabeth Gilbert, autora do livro ‘Comer, Rezar, Amar’.

2 comentários em “Ego: o gênio que mata os melhores artistas da Humanidade

  • 24 de agosto de 2013 em 20:38
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    Lindo, lindo, lindo post! Um prazer de leitura. Kisses!

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    • 24 de agosto de 2013 em 21:08
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      Ele foi tirado de uma palestra, num ritmo meio atropelado mas excelente. Nós só demos uma arrumada, pra contextualizar. xxx too.

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