Por que o brasileiro aceita ser devorado, passivamente, em silêncio?

A REFLEXÃO DE LUIS FERNANDO VERÍSSIMO

Suicídio

Sorte nossa que as árvores não gemam e os animais não falem. Imagine se cada vez que se aproximasse uma motosserra as árvores começassem a gritar “Ai, ai, ai!” e aos bois não faltassem argumentos razoáveis para não querer entrar no matadouro.

Imagine porcos parlamentando em causa própria, galinhas bem articuladas reivindicando sua participação na renda dos ovos e gritando slogans contra o hábito bárbaro de comê-las, pássaros engaiolados fazendo discursos inflamados pela liberdade.

Os únicos bichos que falam são os papagaios, mas até hoje não se tem notícia de um que defendesse os direitos dos outros. Papagaio tem voz, mas não tem consciência de classe.

A vida humana seria difícil se não pudéssemos colher uma beterraba sem ouvir as lamentações da sua família e insultos do resto da horta. Não deixaríamos de comer, claro. Nem beterrabas, nem bois ou galinhas, apesar dos seus protestos.

Mas o remorso, e uma correta noção da prepotência inerente à condição da espécie dominante, faria parte da nossa dieta. Teríamos uma idéia mais exata da nossa crueldade indispensável, sem a qual não viveríamos.

Sorte nossa que os vegetais e os animais não têm nem uma linguagem, quanto mais um discurso organizado. Não os comeríamos com a mesma empáfia se tivessem.

O único consolo deles é que também padecemos da falta de comunicação: ainda não encontramos um jeito de negociar com os germes, convencer os vírus a nos pouparem com retórica e dar remorso em epidemias.

Eu às vezes fico pensando como seria se os brasileiros falassem.

Se protestassem contra o que lhes fazem, se fizessem discursos indignados em todas as filas de matadouros, se cobrassem com veemência uma participação em tudo o que produzem para enriquecer os outros, reagissem a todas as mentiras que lhes dizem, reclamassem tudo que lhes foi negado e sonegado e se negassem a continuar sendo devorados, rotineiramente, em silêncio.

Não é da sua natureza, eu sei, só estou especulando. Ainda seriam dominados por quem domina a linguagem e, além de tudo, sabe que fala mais alto o que nem boca tem, o dinheiro. Mas pelo menos não os comeriam com a mesma empáfia.

Fonte

4 comentários em “Por que o brasileiro aceita ser devorado, passivamente, em silêncio?

  • Pingback: Pourquoi le brésilien accepte d’être dévoré, passivement, en silence? | Les billets d'Augusta

  • 29 de agosto de 2016 em 08:47
    Permalink

    Incrível Veríssimo! Faz poucos dias me debrucei numa quase angústia sobre esse mesmo tema, e fiquei me perguntando por que os 54 milhões de brasileiros que estão sendo roubados não se manifestam, não vão para as ruas, não gritam. E me lembrei do fato de os historiadores até hoje se digladiarem em dúvidas sobre como os espanhóis, com apenas 508 soldados, dominaram uma região da América com 15 milhões de autóctones, matando 11 milhões deles em um ano. As doenças tiveram um papel predominante, mas elas não teriam impedido que milhões enfrentassem com sucesso os invasores, para só depois irem morrendo… Aí me ficou a questão: será que a América é povoada por algum vírus contra o qual somente os ingleses são geneticamente imunes, mas que afeta a coragem e a dignidade dos demais?

    Resposta
  • 29 de agosto de 2016 em 00:00
    Permalink

    Brasileiro está mais preocupado com o próprio umbigo. Explico melhor. Temer anuncia que vai rever e cortar benefícios do INSS. Olha o comentário de brasileiro que eu ouço: “É bom mesmo tem muito vagabundo que está encostado e pode trabalhar”. Temer vai mexer na aposentadoria: “Vai? Chiii, está longe pra me aposentar, até lá eu já morri”. Quem pode com um povo desses? Tem que entrar no nabo mesmo.

    Resposta
  • 28 de agosto de 2016 em 04:48
    Permalink

    Nos contentamos em maquiar perfis sociais para fazer os outros pensarem que nos importamos com alguma coisa de verdade. Não existe atitude nenhuma nisso , a não ser a vaidade de se incluir soc. Precisamos de atitude. Excluir toda a quadrilha de gravata Hermés da vida pública!! Chega né!!!”

    Resposta

Deixe um comentário simpático neste artigo: