Crise econômica mundial explode de novo. Quem vai pagar a conta?


Capitalismo em crise 2011 - 2012

É A TREVA!

O Chefe de Redação

COLAPSO ECONÔMICO SOB O TACÃO DOS ULTRA-NEOLIBERAIS

Por Saul Leblon *

Em março deste ano, quando o presidente dos EUA Barack Obama se preparava para aterrissar no Brasil, em meio a confetes e serpentinas no carnaval promovido por uma mídia obsequiosa, a narrativa dominante saltitava ao som de um novo samba-enredo.

Um esforço coreográfico enorme procurava convencer o distinto público sobre a veracidade de algumas fantasias e adereços.

A saber: a viagem era um ponto de ruptura entre a ‘política externa de esquerda’ do Itamaraty – leia-se de Lula, Celso Amorim e Samuel Pinheiro Guimarães – e o suposto empenho da Presidenta Dilma em uma reaproximação ‘estratégica’ com o aliado do Norte.

Além disto, a visita selaria um a nova agenda, ‘uma reconciliação’ entre Brasília e Washington ancorada em concessões e acordos expressivos; Obama seria o paradigma de uma modernidade a ser seguida por Dilma, distinta do ‘populismo’ político e econômico da ‘escumalha’ latinoamericana – ele usa Twitter, é cool, não gosta de Lula, nem de Chávez.

Algumas horas antes daquela prometida apoteose que, como é sabido, redundou em fiasco, a economista Maria da Conceição Tavares aspergiu certeiras bisnagas de realismo sobre o entrudo inebriado.

E avisou: “Obama não tem nada a nos oferecer. Quase nada depende da vontade de Obama, ou dito melhor, a vontade de Obama quase não pesa nas questões cruciais. A sociedade norte-americana encontra-se congelada pelo bloco conservador por cima e por baixo. Os republicanos mandam no Congresso; os bancos tem hegemonia econômica; a tecnocracia do Estado está acuada.”

E arrematou: “Obama foi anulado pelo conservadorismo de bordel da direita norte-americana”.

Agora que a crise explodiu de novo lá fora, observa-se que a extrema direita republicana pautou mesmo Obama, como Conceição havia antevisto, asfixiando a política fiscal da maior economia do planeta. O anúncio de cortes de gastos públicos da ordem de US$ 2,4 trilhões de dólares sobre um metabolismo econômico combalido, equivale a ordenar aos mercados que se ergam pelos próprios cabelos.

Investidores e especuladores urbi et orbi farejaram o desastre e se anteciparam fugindo em massa de ações e títulos, candidatos a perder o valor de face na recessão em curso.

As manifestações mórbidas de ortodoxia fiscal nos EUA e, antes, o martírio inútil da Grécia, mas também as rebeliões de indignação que tomam as ruas do mundo, em contraste com o alarme sangrento da intolerância neonazista vindo da Noruega, romperam uma blindagem de opacidade e resignação que revestia a crise mundial.

Depois de anos de abordagem asséptica por parte dos governos, e do complacente tratamento desfrutado na mídia, causas e conseqüências da débâcle mais ruidosa do capitalismo desde 1929 adquirem progressiva transparência.

Arcado sob um vácuo de liderança assustador, os EUA de Obama e do Tea Party, mas também a Europa da rendição socialdemocrata, expõem a dimensão política da crise, que realimenta seu impasse econômico.

Como sempre acontece nessas hora, Maria da Conceição recebe telefonemas de Brasília, com a mesma inquietação: ‘E agora?’.

A decana dos economistas brasileiros entende de crise. Ela nasceu em abril de 1930, poucos meses depois da quinta-feira negra de outubro de 1929, quando as bolsas reduziram todo um ciclo a riqueza especulativa a pó e pânico. Em questão de horas.

A voz rouca de quem viveu e estudou todas as demais crises do capitalismo no século XX, vai logo avisando: “Não, não é um quadro como o de 1929. Aquele teve um ápice, com recidivas, mas ensejou um desdobramento político que inauguraria um outro ciclo, com Roosevelt e o New Deal. O que passamos agora é distinto de tudo isso”.

Maria da Conceição faz uma pausa para para advertir em seguida: “Todavia não menos grave e talvez mais angustiante. É um colapso enrustido, arrastado, latejante. Sim, você tem a comprovação empírica do fracasso neoliberal; mas e daí? São eles que estão no comando, ou será o quê esse arrocho fiscal nos EUA enfiado pelo Tea Party na goela do Obama? Vivemos um colapso do neoliberalismo sob o tacão dos ultra-neoliberais: isso é a treva!’ , desabafa.

E reforça o torque satisfeita com a síntese enunciada sublinhando, inclemente: ‘É a treva!’

A professora de reconhecida bagagem intelectual, respeitada mesmo pelos que divergem de seus pontos de vista, normalmente prefere não avançar na reflexão política e ideológica.

Mas neste caso insiste: ‘Não é um fascismo explícito, como se viu na Europa, em 30. Até porque o nazismo, por exemplo – e isso não abona em nada aquela catástrofe genocida, postulava o crescimento com forte indução estatal. O que se tem hoje é o horror de um vazio político de onde emergem as criaturas do Tea Party e coisas assemelhadas na Europa. Não há ruptura na crise, mas sim, permanência e aprofundamento. Será uma crise longa, penosa, desagregadora, mais próxima da Depressão do final do século XIX, do que do crash de 1929”.

* Leia o texto completo na Carta Maior

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O Chefe de Redação


Um comentário em “Crise econômica mundial explode de novo. Quem vai pagar a conta?

  • 8 de agosto de 2011 em 18:14
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    Hoje a queda da Bolsa-SP chegou a 9,73 e fechou a quase -8,1% no final do pregão. Tombaço!

    Um relatório do HSBC pôs mais lenha na fogueira hoje ao falar em “podridão fiscal e bagunça orçamentária” nos stêites.

    “Agora podemos dizer com segurança que os EUA passam pela recessão mais profunda desde o período pós-guerra e, mais importante, com recuperação posterior mais rasa. O PIB é muito menor do que na pré-crise, o desemprego é muito maior e, apesar do estímulo maciço via políticas monetária e fiscal, os mercados financeiros temem um duplo mergulho”, afirma o banco.

    Para bom entendor… não precisava de palavras tão completas para antever o tamanho do ferro que vem chegando por lá.

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