Comemorações pela prisão de condenados no julgamento do ‘mensalão’

VELHA MÍDIA FESTEJA COM O VINHO AMARGO

Colunistas da velha mídia estão festejando com a sua habitual hipocrisia e estridência a decisão do STF de mandar prender boa parte dos réus da AP 470, o sonho menos deles do que de seus patrões.

Num momento particularmente abjeto da história da imprensa brasileira, dois colunistas – Merval Pereira e Carlos Alberto Sardenberg – chegaram a apostar na CBN um vinho pela prisão de José Dirceu.

Prisão José Dirceu e Genoíno

Você vai ler na mídia intermináveis elogios aos heróis togados, aspas, comandados pelo já folclórico Joaquim Barbosa.

Mas um olhar mais profundo, e menos viciado, mostra que o Mensalão representou, na verdade, uma derrota para a elite predadora que luta ferozmente para conservar seus privilégios e manter o Brasil como um dos campeões de desigualdade social.

Por que derrota, se a foto de Dirceu na cadeia vai estar nas manchetes?

Porque o que se desejava era muito mais do que isso. O Mensalão foi a maneira que o chamado 1% encontrou para repetir o que fizera em 1954 com Getúlio e 1964 com João Goulart.

Numa palavra, retomar o poder por outra via que não a das urnas.

A direita brasileira, na falta de votos, procura incansavelmente outras maneiras de se apoderar do Estado – e dos cofres do BNDES, e das mamatas proporcionadas por presidentes serviçais etc e etc.

A palavra mágica é, sempre, “corrupção” – embora nada mais corrupto e mais corruptor do que a direita brasileira.

Sua voz, a Globo, sonegou apenas num caso mais de 1 bilhão de reais numa trapaça em que tratou a compra dos direitos de transmissão de uma Copa do Mundo como se fosse um investimento no exterior.

Foi assim como o “mar de lama” inventado contra Getúlio, em 1954. Foi assim com Jango, dez anos depois, alvo do mesmo tipo de acusação sórdida e mentirosa.

E foi assim agora.

Por que o uso repetido da palavra “corrupção” como forma de dar um golpe? Porque, ao longo da história, funcionou.

O extrato mais reacionário da classe média sempre foi extraordinariamente suscetível a ser engabelado por campanhas em nome do combate – cínico, descarado e oportunista – à “corrupção”.

A velha mídia – em 54, 64 e agora – faz o seguinte: ignora a real corrupção a seu redor enquanto, ao mesmo tempo, manipula e amplia, ou simplesmente inventa, corrupção em seus adversários.

Agora mesmo, no calor da roubalheira de um grupo nascido e crescido nas gestões de Serra e Kassab na prefeitura, o foco vai se desviando para Haddad. Serra é poupado, assim como em outro escândalo monumental, o do metrô de São Paulo.

Voltemos um pouco.

A emenda que permitiu a reeleição de FHC passou porque o apoio para ela foi comprado, como é amplamente sabido. Congressistas receberam 200 mil reais em dinheiro da época – multiplique isso por algumas vezes para saber o valor de hoje — para aprová-la.

Mas isso não é notícia, não é corrupção, segundo a lógica da mídia.

O caso do Mensalão emergiu para que terminasse como ocorreu em 1954 e 1964: com a derrubada de quem foi eleito democraticamente sob o verniz da “luta contra a corrupção”.

Mas a meta não foi alcançada – e isso é uma extraordinária vitória para a sociedade brasileira. No conjunto, ela não se deixou enganar mais uma vez.

O sonho de impeachment da direita fracassou. Ruiu também a esperança de que nas urnas, sob a influência do noticiário massacrante, os eleitores votassem nos amigos do 1%: Serra conseguiu perder São Paulo para Haddad, um desconhecido.

O que a voz rouca das ruas disse foi: estão tentando bater minha carteira com esse noticiário.

O brasileiro acordou. Ele sabe que a Globo — ou a Veja, ou a Folha – quer o que é bom para ela, ou elas, como mostram as listas de bilionários brasileiros, dominadas pelas famílias da mídia. Mas não é bom para a sociedade.

E por estar acordado o brasileiro impediu que o Mensalão desse no que o 1% queria – num golpe.

Por isso, o vinho que será tomado pela prisão de Dirceu será extremamente amargo.

Por Paulo Nogueira

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