Cobertura cínica da velha mídia vampiriza vítimas de tragédias

Tragédia da boate Kiss

INTERESSES IMORAIS E OCULTOS

O Chefe de Redação

O que aconteceu no último domingo na boate Kiss foi fruto de uma coleção de indefiníveis aberrações que, por sua extrema gravidade, causam indignação e merecem punição rigorosíssima.

Ocorre que não são apenas os donos ou os seguranças da casa de shows, tampouco a Prefeitura de Santa Maria e o Corpo de Bombeiros, que merecem condenação.

O papel que a velha mídia exerce diante deste drama humano de proporções colossais, a exemplo do que tem feito em relação a tantos outros, também se revela abjeto e passível de duríssimas críticas.

A imprensa tem o direito – e, mais que isto, o dever – de noticiar tragédias com isenção e equilíbrio, ao vivo e em cores. Fornecer informações de interesse público é uma das suas atribuições sociais.

A morte de 233 seres humanos, ainda mais nas circunstâncias verificadas na casa de shows é, obviamente, digna de uma extensa cobertura porque interessa a um expressivo segmento da sociedade.

Mas o tratamento de assuntos desta natureza pressupõe cuidado extremo. Não por acaso. É tênue, muito tênue, o limite que separa a informação de interesse público da notícia convertida em espetáculo com objetivos escusos.

Infelizmente, muitos profissionais da imprensa (deliberadamente, inclusive) romperam este limite.

A mídia faz a cobertura da tragédia de Santa Maria não com o nobre propósito que deveria motivá-la – garantir que aberrações como esta não se repitam, algo possível por meio da divulgação permanente de informações corretas e isentas, fruto de pesquisa e investigação sérias, revelando seu compromisso com a sociedade.

Seu propósito é outro – absolutamente vil, porque imoral e oculto: converter a tragédia dos meninos de Santa Maria em um grande espetáculo midiático com o objetivo de garantir audiência cativa.

De preferência, às custas das lágrimas do público.

É o que se chama, em Teoria da Comunicação, de “espetacularização” da notícia, ou seja, a sua conversão em um agente não do bom jornalismo, mas do entretenimento e do cinismo.

Ele dá a falsa impressão de que o compromisso primeiro desta mídia é com o público, quando o é de fato, e acima de tudo, com seus patrocinadores.

Papel da imprensa na cobertura do incêndio

É um Big Brother de verdade, formado não por beldades vulgares e sem cérebro, do tipo que costumam freqüentar os reality shows, mas por cidadãos respeitosos vítimas da irresponsabilidade humana.

Sensacionalismo, em uma palavra, como nos tempos do programa Aqui Agora, extinto em 1997. Mais camuflado, é verdade, mas uma forma de sensacionalismo, de todo modo.

Foi o que aconteceu durante todo o dia da tragédia, quando, por exemplo, até programas dominicais exclusivamente de entretenimento – inclusive os conduzidos por não jornalistas – consumiram horas a fio tratando do tema, mas em tom predominantemente emocional e policialesco, e não informativo.

Tampouco estes veículos sinalizaram o interesse de incluir este tema (a segurança em casas de shows) em uma agenda permanente de debates.

Tudo isso não se trata de uma novidade. O histórico de maior parte da velha mídia é profícuo neste gênero de cinismo, no âmbito das tragédias humanas.

O que realmente move a engrenagem da imprensa neste tipo de situação não é exatamente o interesse público, ou o sentimento de justiça e de solidariedade às vítimas.

O que se deseja é, tão somente, vampirizar as vítimas das tragédias.

Nesta lógica cínica, importa não garantir espaço permanente às famílias das vítimas das tragédias, mas oferecer generosa cobertura aos seus dramas apenas durante o curto tempo em que os corpos dos mortos continuarem rendendo manchetes e as atenções do público.

Até, portanto, o surgimento de uma nova tragédia que abasteça com sangue fresco a sede por dramas humanos novos dos que chamam isso de jornalismo.

Os meninos que perderam suas vidas no último domingo, bem como suas famílias, merecem um tratamento respeitoso – e não serem citados como vítimas de uma tragédia dantesca para, depois, serem praticamente esquecidos pela poeira do tempo, o que fatalmente irá acontecer.

É o que, aliás, merecem todas as vítimas de todas as tragédias, pelo simples fato de que são seres humanos – e não objetos descartáveis a serviço de empresários e jornalistas que lançam um olho sob os locais das tragédias e o outro sob os números da audiência.

Aurélio Munhoz

Um comentário em “Cobertura cínica da velha mídia vampiriza vítimas de tragédias

  • 29 de janeiro de 2013 em 20:07
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    A primeira imagem deste artigo é bastante eloquente e reflete muito bem a sensação que se tem ao assistir os canais da velha mídia meretriz.
    Já a segunda imagem lembra a figura abjeta dos “dementadores” do filme Harry Potter e a função das mídias sabotadoras é exatamente causar dor, aflição, medo, insegurança e tornar dementes quem cai nas suas armadilhas psicológicas.
    Tais “comensais da morte” apenas sobrevivem dos fracos de espírito e estes estão em número cada vez menor.
    Aos patrocinadores de tais meios de comunicação fica uma singela sugestão:
    “Caiam fora antes que afundem suas empresas abraçados com tais vampiros”!!!

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