CDT – Código de Defesa do Telespectador contra a baixaria na TV

Crítica a programação de TV

A INVOLUÇÃO DA TV NO BRASIL

O Chefe de Redação

Tá mais do que na hora de nós, os cidadãos-contribuintes que formamos opinião, por assim dizer, bolarmos aí um CDT — Código de Defesa do Telespectador. Censura é outra coisa. Queremos qualidade limpa, criativa, alto nível. Os canais de tevê não são concedidos pelo governo? Então?

CONTRA A BAIXARIA NA TELEVISÃO BRASILEIRA

Por Silas Corrêa Leite *

De uns tempos para cá, a televisão, que deveria ser um meio eficaz de educação e entretenimento, de algum nível básico, pelo menos, virou um verdadeiro ninho de gatos pardos, entre a baixaria consentida e a falta do mínimo de respeito primário ao telespectador babaquara ou incauto, procurando refrescar a cuca, ser informado, não se imbecilizar no totem da nova senzala.

Tá mais do que na hora de nós, os cidadãos-contribuintes que formamos opinião, por assim dizer, bolarmos aí um Código de Defesa do Telespectador (CDT). Vou fazer apontamentos para o rascunho de um.

Sim, porque o Fantástico, que era uma revista mais ou menos aproveitável, caiu numa mesmice estilo bocó de amigos do Bial et trupe, e nada de novo no front. Sequer faz algo palatável em função mesmo de alguma boa cópia, parafraseando Mestre Chacrinha. Cadê os bons clipes de MPB? “As Flores do Jardim de Nossa Casa”: ave, Bethânia.

Do futebol nem vou falar. Só isso é assunto para outra croniqueta de protesto, tal as sandices de tantos gênios narradores e críticos de ocasião que inventam fórmulas maravilhosas enquanto o esporte bretão cai de qualidade e nível. Esvaziando arquibancadas e reinventando violências organizadas de guetos e becos com gangues raivosas movidas a drogas e imprudências do associacionismo extralar.

Falo também da programação falha, inócua, burrinha da silva, incorreta e nada pontual, dos filmes ridículos repetidos à exaustão.

Se alguém acha que o que se vê durante a noite é ruim, espere pra ficar rendido em casa uma semana de quarentena, e vai ver que a programação marota da tarde é uma xaropada sem igual. Uma vergonha. De Xuxa e Ana Maria Brega pra cima.

Os programecos infantis fazem a cabeça do baby para o consumismo fácil, pela burrice por atacado, mais aqueles desenhos aterradores e alguns orientais heróis chinfrins. É duro acreditar que tem gente que vê isso tudo e sai ileso, e, pior, os pais não fazem nada.

Não é à toa que o Chaves de dez anos atrás, ruim por ruim, ainda é melhor do que Angélicas e outras barbaridades com rótulos de novidadessarangas.

E as pegadinhas? Uma estupidez, um crime até. Constrangimento, tratamento degradante – crime previsto na Constituição (e inafiançável) –, inclusive o constrangido telespectador pego pela palavra marota, no contrapé da complicada situação vexatória, sem o zip-zaping da mão ligeira evitando o pior pro lar doce lar. Videocassetadas? Nem pensar. Nem rir.

E ninguém faz nada?

O João Kléber já foi uma vergonha. Inventava verdades de ocasião, fazia uma dramaturgia de araque, mostrava a carta falsa do causo insólito (bisonho, bizarro) e tudo mais. Nem falo da TV Band, porque ela deixou de ser a segunda para ser a pior. Com raras exceções.

CQC? Falam mal de Brasília D.C. (Depois do Collor), mas perdoam, blindam, os tucanos de Sampa, o Estado-Máfia…

Big Brother? Vade retro. Ver para crer: como tem gente besta e bobamente curiosa que gosta de sapear o nada olhando pro ninguém, ou o ninguém dizendo asneiras pro nada e assim vai à toleima. Todos verdadeiros asnonautas. Perdão pelo neologismo.

Programas de humor? Sai de baixo mesmo!

A Praça que é rala, a Zorra (que é um zero total) reinventa piadas velhas e sempre as mesmas discriminações contra lacraias, afeminados, louras burras, deficientes, negros, favelados, esquisitos, meios sexos e outros estereótipos.

Cadê os Direitos Humanos dos Sobreviventes?

Aqui e ali, claro, salva-se alguma coisa não-tucana da TV Cultura, como os programas Provocações, Metrópolis, Ensaio, Cartão Verde, só para citar alguns.

Ah, pior, os filmes de sábado da Globo são um lixo ao cubo.

Estupros, mulheres apanhando de marido, violência por atacado, gangues e as mesmices de sempre, nada de novo, e nada para um salutar entrosamento com a família como um bom filme leve, inteligente, gracioso, cheio de humor. É tudo lixo. Os programadores (existem?) não se tocam? Ou ganham mais nas tevês a cabo?

Sábados? Perdidos.

Tem horário que fuço do canal um até o oitenta e tanto, e não tem nadica de nada. De bois e cuques, de bobices a programas de auditório que as câmeras rebolam mais que as erógenas zonas genitais atiradas na cara do telespectador desavisado ou imprudente.

Programas religiosos? Nem de pastor, nem de padre, nem afros.

Domingos? Entre o Gugu e o Faustão? Entre a Eliana e alguma outra dose dupla de breguice, pieguices e tramoias bobas que não nos dão nada, não servem nada de bom, não dão opções. E ainda falta criatividade, jornalismo investigativo e outros quitutes mais.

Jornal Nacional? Sabem de tudo, são donos da verdade, o PCC de São Paulo matando policiais até, professor ganhando salário de mendigo – a Dieta Alckmin, Emagreça e Morra de Fome Dando Aulas no Estado de São Paulo – e não dão nada, blindam o PSDB do Serra ET caterva. E a CPI da Privatização Tucana? Perto dela e da CPI do Cachoeira, o mensalão virou mensalinho.

E os diretores de plantão ainda torcem para uma ocasional morte de famoso, uma tragédia espetacular, um crime hediondo, uma fuga magistral de prisão corrupta, um desastre fora de série, e assim vão tapando o horário com bobagens improvisadas. Abobrinhas e marotices. Pamonhas e propagandas enganosas. Remédios-mentiras.

Melhor ir andar de carrinho de rolimã com o filhote do vizinho na ladeira do lado. Pegar rabeira de jipe rueiro. Ou ler gibis velhos do Walt Disney. Quem sabe dar uma sapeada no truco do bar. Ou podar a roseira. Talvez, lavar o carro com o júnior… Ou levar o Rex pra marcar território nas urinanças.

Melhor ouvir Vandré, Cartola, Taiguara, Edith Piaf. Ou Elis Regina, The Beatles. Ou ler um livro de poesia.

Nunca ficar ali, entre o tédio e a mesmice.

Até o Globo Repórter tá uma lástima. Que pena.

Das novelas vou falar num outro artigo. Mas pioraram. Mexicanizaram nossa cultura televisiva mais pop. Ficou um sentido maior ainda, na saudosa falta do genial Dias Gomes. Jornais na tevê? Tudo ladainha do mesmo arco-da-velha. Um suspeito antilulismo começando a criar coragem-vergonha. O medo do PT criou monstros?

Até quando? Quem ganha com isso? Ninguém faz nada? E as autoridades constituídas?

Gilberto Gil, valei por nós. Ave, Nara Leão. Os que sobreviverão te reverenciam…

Já penso em bolar mesmo, falando sério, um tal Código de Defesa do Telespectador. Censura é outra coisa. Queremos qualidade limpa, criativa, alto nível. Os canais de tevê não são concedidos pelo governo? Então?

O Fantástico virou um Programa do Ratinho com grife de ocasião. O Ratinho empacou naquele dígito do Ibope entre os manés, os bobos, e os filhotes que, na falta do que fazer, sondam algum disparate novo no exame do DNA com pancadaria incentivada na moita, para enganar o estatuto do crível, do ético, do bom senso, do familiar.

Sérgio Mallandro? Bem, aí já é aguentar demais. Tô fora! Desligo. Vou catar coquinhos.

Clic!

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Silas Corrêa Leite é poeta, jornalista e educador

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