Caso Demóstenes-Cachoeira: o apoio da imprensa ao crime organizado

Manipulação da velha mídia

É A VELHA MÍDIA, ESTÚPIDO!

O Chefe de Redação

‘Mentiram-me. Mentiram-me ontem e hoje mentem novamente. Mentem de corpo e alma, completamente. E mentem de maneira tão pungente que acho que mentem sinceramente. Mentem, sobretudo, impune/mente. Não mentem tristes. Alegremente mentem. Mentem tão nacional/mente que acham que mentindo história afora vão enganar a morte eterna/mente. Mentem. Mentem e calam. Mas suas frases falam. E desfilam de tal modo nuas que mesmo um cego pode ver a verdade em trapos pelas ruas.‘ — Affonso Romanno de Sant’Anna

LIGAÇÕES PERIGOSAS COM A IMPRENSA

por Najla Passos e Vinicius Mansur *

O vazamento de trechos do inquérito que resultou na deflagração da Operação Monte Carlo, pela Polícia Federal, em fevereiro, mostra que, além de corromper agentes públicos e manter estreitas relações com políticos influentes como o senador Demóstenes Torres (DEM-GO), a organização criminosa chefiada por Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, também contava com o apoio da imprensa para viabilizar suas atividades ilícitas.

O jornalista Luis Nassif revelou em seu blog que as gravações feitas pela PF “mostram sinais incontestes de associação criminosa da revista [Veja] com o bicheiro [Cachoeira]”. Seriam mais de 200 telefonemas trocados entre Cachoeira e o diretor da sucursal de Brasília, Policarpo Júnior, nos quais o jornalista informa sobre as matérias publicadas e recebe informações e elogios.

Segundo Nassif, depois da associação com Cachoeira, Policarpo tornou-se diretor da sucursal da revista e, mais recentemente, passou a integrar a cúpula da publicação, indicado pelo diretor Eurípedes Alcântara. “Há indícios de que Cachoeira foi sócio da revista na maioria dos escândalos dos últimos anos”, conclui Nassif.

Na denúncia encaminhada à Justiça Federal em Goiás para solicitar a prisão de 81 membros da quadrilha, os procuradores da República comprovam que Lenine Araújo de Souza, o principal braço operacional de Cachoeira, mantinha contato com jornalistas, com o propósito de plantar matérias, mediante pagamento, que favorecessem as atividades criminosas da quadrilha.

Exemplo é um diálogo gravado pela PF, por meio de escutas telefônicas autorizadas, entre Lenine e o jornalista Wagner Relâmpago, repórter do programa DF Alerta, da TV Brasília/Rede TV. Na conversa, Relâmpago promete criticar as autoridades que tentavam coibir os jogos clandestinos no entorno do Distrito Federal, uma das áreas de atuação da quadrilha. Em troca, Lenine lhe oferece dinheiro.

Lenine: Os amigos não teve [sic] aula hoje, aí não ouviu.

Wagner: Bati bem… e vou passar uns quatro, cinco dias batendo pra ver se eles desanimam um pouquinho.

Lenine: É isso mesmo. É isso mesmo… né? Segunda-feira eu vou até gravar isso aqui… o programa.

Wagner: Beleza, grava segunda. Eu vou bater, vou bater terça… até a hora que eles se animarem. Aí o cara vem conversar comigo. Aí eu então… E se ele vier conversar comigo, aí eu arrojo ele no ar, que é pior.

Lenine: Beleza. Beleza. Excelente. Segunda-feira então você toca, e quando for durante o dia, você me chama. Vamos conversar segunda-feira.

Wagner: Beleza. Deixa eu falar um negócio com você. Aquele cheque lá… recebi dinheiro do cara. O quê que eu faço? Deposito na sua conta, como é que faz?

Lenine: Não, fica com ele aí. Pode ficar com ele aí. Você tá prestando esse favor pra mim. Tá!

Wagner: Não. Uma coisa aqui não tem nada a ver com a outra. A nossa amizade está acima desse trem aí. Bater no cara eu vou, porque ele tá prejudicando você aí.

Lenine: Eu sei disso. Sei disso. Tanto é que eu não… como se diz… não cheguei, não falei nada, o quê seria, como seria. Mas isso aí é uma gratidão mesmo. Você sabe disso.

Wagner: Tranquilo. Essa semana eu vou… eu vou dar uma batida nos três dias seguidos pra ver o que acontece.

Lenine: Beleza.

Wagner: Abraço, meu irmão. Bom final de semana pra você. Fica com Deus aí.

* Com Observatório da Imprensa (clique na ilustração para ampliar)


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