A hipocrisia da polêmica sobre o ensino da língua portuguesa


Por Uma Vida Melhor - Heloísa Ramos

POR UMA VIDA MELHOR

As crianças erram. Porque são humanas. Mais humanas do que nós, adultos adulterados. Odiamos errar. Queremos a perfeição. E por isso deixamos de aprender com a mesma rapidez com que aprendíamos na infância. Mas os erros revelam verdades. Especialmente os lingüísticos. *

A Cachaça da Happy Hour

Uma professora tinha em sala de aula um aluno que falava “truxe” em vez de “trouxe”. O menino vivia trazendo coisas: “Professora, eu truxe o lanche! Professora, eu truxe o caderno! Professora, eu truxe a lição de casa!”

A professora repetia, com um sorriso bondoso, que era errado dizer “truxe”. Que o certo era “trouxe”. Que a gramática é que estava certa. O aluno também sorria, ouvia, mas não entendia a correção. Fazia expressão de “caixa d’água”, indecifrável.

E continuava trazendo coisas: “Professora, eu truxe um bilhete da minha mãe! Professora, eu truxe uma flor para a senhora!”

Até que um dia, com a paciência esgotada, quando mais uma vez o “truxe” se fez, a professora exigiu que o menino escrevesse no caderno quinhentas vezes: “eu trouxe”, “eu trouxe”, “eu trouxe”… E que trouxesse o exercício-castigo no dia seguinte, sem falta!

E o menino não faltou. Lá estava ele, diante da professora. O olhar tranquilo, a alegria do dever cumprido, as quinhentas linhas devidamente alinhadas. Um começo de bolha no dedo, por escrever com força e realizar a tarefa:

— Professora, aqui está. Eu truxe os trouxe!

*  O texto “Meus Erros Preferidos”, de Gabriel Perissé — escritor e Doutor em Educação pela USP –, pode e deve ser lido na íntegra aqui.

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Blog da Nívia de Oliveira Castro

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