A ficha caiu: o que é que eu tô fazendo aqui neste planeta?

Era apenas uma questão de tempo. O gatilho teria de ser disparado mais cedo ou mais tarde. Eu sentia que algo novo se aproximava. Até que um dia, sem o menor aviso, aconteceu.

Foi na Copa do Mundo, numa choperia lotada, vuvuzelas a mil, entre “uhhhhhs” e outros urros desesperados. Torcer a realidade em conjunto parece coisa politicamente aceitável.

Futebol e histeria coletiva

A verdade é que o exagero e o descontrole emocional reinavam absolutos sob o império da histeria coletiva. Vamos combinar, tremenda pagação de mico, suprassumo da bizarrice potencializada pelo azedume de odores etílicos, de molho vinagrete e fumaça de churrasco.

E eu a caráter, com a indefectível – e cara pra caramba! – camisa oficial amarelinha, logomarca de multinacional no peito e vuvuzela a postos. Quero dizer, invisível como todos os demais ali no meião da galera, no bololô daquela plebe rude, ruidosa e alvoroçada.

Apesar do alarido, da telona de plasma podia-se ouvir aquela mistureba óbvia de ufanismo mequetrefe repetida à exaustão pelo insuportável mestre-de-cerimônias e manipulador-mor #calabocagalvao. Tudo medíocre como sempre, aliado a seguidas cutucadas hipócritas no Dunga pela ousadia do técnico em enfrentar a prepotência da velha e decadente TV Globo.

hashtag #calabocagalvão twitterFoi entre um “sai que é suuuua Júlio César” ou outra frase feita qualquer para elogiar aquele – convenhamos – perna de pau do Kaká, que me lembrei dos tempos de estágio numa grande emissora brasileira. Vale a pena contar o que aconteceu.

Uma reportagem minha acerca de determinada maracutaia num clube de enorme torcida “caiu”, ou seja, foi vetada depois de editada para ir ao ar, por decisão superior do “aquário”. Fui reclamar, óbvio, muito da vida.

Um famoso narrador esportivo, que estava reunido com os demais editores, procurou me acalmar pois eu me encontrava espumando de ódio e prestes a explodir. Nunca esqueci uma vírgula do que foi dito, aliás, em tom bem didático e paternal:

– Compreenda que o meio esportivo – o futebol especialmente – tem uma importância estratégica, política e financeira que vai muito além da compreensão dos simples mortais. Há duas categorias de pessoas envolvidas nesse processo: uma minoria, muito unida e poderosa, que ganha fortunas estratosféricas para administrar e divulgar o negócio; e uma maioria, dividida em torcidas, se comportando como bandos de macacos, que paga o que nós bem entendemos para participar do circo. Você tem dúvidas de que lado estamos? Trate, então, de fazer a sua carreira decolar nesse empreendimento e apenas entreviste os atletas e promova os clubes. É essa a fantasia que o povo quer, o que dá audiência e, portanto, poder.

Loucura e fanatismoNaturalmente a tal “carreira” como repórter da área esportiva começou a mixar ali mesmo pois jamais me enxerguei a compactuar com esquemas que, no futuro, iriam se revelar mafiosos demais para o meu sensível fígado.

Foi o estalo que, sem qualquer explicação aparente, me veio de súbito à cabeça, bem no meio do jogo em que o Brasil viria a ser eliminado da Copa. Deve ter havido algum estímulo para provocar aquele gap, um evento sincronístico qualquer, sei lá.

O fato é que a ficha caiu. Olhei para o povaréu à minha volta e registrei a cena como num flash congelado, imóvel e silencioso. E me perguntei: “o que é que eu estou fazendo aqui?”

Depois de alguns segundos que pareceram uma eternidade, meus neurônios tentaram em vão reconectar com aquela algazarra. No cinema a gente vê umas cenas assim. Igualzinho. Porém algo havia sido profundamente modificado.

Um incômodo, um desconforto, uma sensação de vazio, ao mesmo tempo me comprimiam e me empurravam para fora daquele lugar. Era como se me encontrasse num vácuo absoluto.

Toque de silêncio com vuvuzelaPassados aqueles momentos iniciais de estupor, sobreveio uma melancolia profunda ao perceber que não tinha mais nada a ver com a balbúrdia que ocorria desenfreada à minha volta.

Não me movia, não reagia, devia estar com o olhar perdido em algum ponto opaco.

Apenas saí daquela espécie de transe quando uma colega me chacoalhou, berrando ao meu ouvido as palavras-chave:

– Ihhhhh, que cara mais songamonga é essa? Hellôôô-ôu! Tá com jeito de extraterrestre que baixou aqui na Terra de repente. Se liga!

Pois foi o re-start que faltava. Levantei num pulo, deixei a grana da minha parte na conta sobre a mesa, catei meus pertences, entreguei a vuvuzelinha mixuruca para a amiga e me despedi:

– Você tem razão. Eu não sou desse planeta!

E saí, feliz por ter despertado uma nova consciência, ou que nome isso lá tenha. No caminho de volta para casa bateu o insight maluco: “vou detonar todo mundo com um blog”.

Taí, custou um pouquinho para organizar, me adaptar aos novos controles tecnológicos, mas comecei finalmente a cumprir a minha verdadeira missão aqui na Terra.

ets-em-ovnis-observam-terraqueos-a-distancia


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