A batalha pelos suculentos contratos para a reconstrução da Líbia


Líbia saqueada

GUERRA DE INTERESSES

Potências ocidentais se movem no norte da África com duas chaves nas mãos: a dos ‘valores’ da liberdade e da justiça, para ludibriar a opinião pública mundial, e a chave dos negócios obscuros com as piores tiranias da história, que é o que sempre interessa para valer.

O Chefe de Redação

FRANÇA E ITÁLIA DISPUTAM ‘RECONSTRUÇÃO’ DA LÍBIA PARA ESCAPAR DA CRISE

Começou a batalha pelos apetitosos contratos que a reconstrução da Líbia promete.

Assim como Itália, Inglaterra e Estados Unidos, a França se apressa em realizar uma série de suculentos negócios com os rebeldes que tiraram Muammar Kadafi do poder com a ajuda das mesmas potências que antes estendiam o tapete vermelho ante os pés do líder líbio.

Roma e Paris saem na frente da competição pelos negócios da reconstrução do país.

No mesmo dia em que se iniciava na capital francesa uma conferência internacional com 60 países e organizações internacionais para discutir sobre a ajuda de emergência e a reconstrução da Líbia, a imprensa francesa revelava detalhes sobre os bastidores da ajuda militar fornecida por Paris à insurgência líbia.

Segundo o matutino Libération, o Conselho Nacional de Transição (CNT), órgão que agrupa a insurgência, prometeu a França 35% do petróleo líbio em troca do apoio de Paris à campanha contra Kadafi.

A França ocupa uma posição de vanguarda na intervenção da OTAN. Paris elaborou, juntamente com Londres, a resolução 1973 da ONU que abriu o espaço aéreo para os aviões da Aliança Atlântica e depois usou sua influência para aprová-la no Conselho de Segurança.

A França foi também o primeiro país a reconhecer o Conselho Nacional de Transição como o “representante legítimo” do povo líbio. A hora da recompensa parece ter chegado para as companhias petroleiras francesas.

O Libération publicou uma carta enviada pelo CNT, onde a organização política dos rebeldes evoca claramente “a assinatura de um acordo atribuindo 35% do petróleo bruto aos franceses em troca do apoio total e permanente a nosso Conselho”.

O ministro francês de Relações Exteriores, Alain Juppé, disse que não sabia da existência da carta mas lembrou que, desde o início, o CNT havia dito “muito oficialmente” que, quando chegasse a fase da reconstrução, se dirigiria “preferencialmente aos países que o apoiaram”. Segundo Alain Juppé, isso é “bastante lógico e justo”.

França e Itália competem hoje pelos futuros contratos com as novas autoridades de Tripoli.

Antes da queda de Kadafi, a Líbia produzia 1,55 milhões de barris de petróleo por dia. Isso equivale a 2% da produção mundial e fez o país figurar na 17ª posição do ranking dos países produtores de petróleo.

Durante o reinado do coronel Kadafi, Roma importava 306.000 barris de petróleo por dia contra 205.000 da França.

No entanto, ao contrário de Paris, até a queda do coronel, Roma foi o primeiro sócio comercial da líbia com mais de 180 empresas italianas instaladas no país.

A produção petroleira líbia caiu atualmente para 50.000 barris de petróleo por dia e serão necessários vários anos para que o sistema recupere altos níveis de produtividade.

No entanto, o ouro negro não é a única meta das grandes potências. Estradas e infraestrutura também aparecem no cardápio.

Alguns países, como a Itália, já estão presentes de maneira sólida. O Tratado da Amizade, firmado em 2008 entre Kadafi e o presidente do Conselho Italiano, Silvio Berlusconi, permitiu a grupos italianos obter contratos consideráveis.

Na lista, figura a Finmeccanica (ferrovias e estradas) e a empresa de trabalhos públicos Impregilo (BTP).

A corrida entre Roma e Paris está aberta. O primeiro é um antagonista e sócio histórico, Itália, e o segundo um recém-chegado como Nicolas Sarkozy que soube tirar proveito da situação e localizar-se na linha de frente.

Paris ocupou o lugar mais destacado da cena militar durante as operações da OTAN na Líbia, enquanto Roma permaneceu entre as sombras.

As potências ocidentais desempenharão um papel central na reconstrução da Líbia. Sua influência será tão fundamental como foi nos anos Kadafi.

O Ocidente nunca se privou de pactuar com o astuto coronel, nem sequer nos campos que tinham a ver com a liberdade ou os direitos humanos.

Esta semana, soube-se que a empresa francesa Amesys instalou na Líbia de Kadafi o sistema Eagle. Esse dispositivo permitiu que o regime espionasse todos os correios eletrônicos e as conexões de internet da população.

As potências ocidentais se movem com duas chaves nas mãos: a dos valores da liberdade e da justiça e a chave dos negócios obscuros com as piores tiranias da história.

Na Carta Maior, com charge de Carlos Latuff

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O Chefe de Redação


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